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Relato de uma sobrevivente (Guatemala parte 3)

Izabela Cumatzil foi uma das personagens que me ajudaram a entender e escrever sobre o trágico período de guerra civil da Guatemala. Em 04 de setembro de 2003, ela contou:


Perdi dois irmãos nos massacres. Um em 1981; o outro, em 1982. Às vezes começamos a contar nossa história e temos sentimentos fortes de verdade. E não gostamos de voltar ao tema dos massacres. Também sou testemunha do que fizeram, de todas as torturas, mas é muito doloroso contar.


Os soldados usavam os jovens para carregar suas coisas de um lugar para outro e faziam os homens trabalhar e cavar um poço grande para que eles mesmos fossem enterrados. As mulheres, eles as estupravam. Principalmente as moças solteiras. As estupravam até que as matavam. Das mulheres grávidas, cortavam a barriga, tiravam os bebês de dentro e os colocavam sobre as pernas das mães. Tudo isso fez o exército.


Agarravam as crianças pequenas pelos pés e as matavam. Também metiam homens, mulheres e crianças que não podiam matar a bala dentro das salas de reunião e nas capelas e os queimavam. Jogavam gasolina... Dentro estava toda a gente e a molhavam com gasolina. Com os soldados em volta, do lado de fora, como se poderia escapar?


Queimavam as casas com tudo dentro. Inclusive as pessoas - homens, mulheres, velhos, crianças... se acabou, viraram cinzas! Foi isso que aconteceu em Cuarto Pueblo no dia 14 de março de 1982. Foi muito cruel.


Nós, os sobreviventes, não fomos ao mercado no povoado. Por isso escapamos. O que fizemos foi fugir. Nos encontramos com outros sobreviventes, nos organizamos em poucas famílias e fomos para baixo das montanhas. Deixamos nossas casas abandonadas. Ficaram animais, ficou tudo. O que podíamos carregar é o que pudemos levar.


O exército sempre procurou as pessoas no centro, nas casas. Onde chegavam, não havia mais ninguém. Então, começaram a queimar as casas. Quanto aos animais, os comeram ou os levaram. Todos os soldados fizeram o que quiseram.


Nessa época, eu não tinha filhos, mas estava grávida. Com sete meses de gravidez, tive que correr fugindo com meu marido e outras famílias. Cruzamos a fronteira com o México e outras famílias que estavam na redondeza também puderam se esconder, enquanto o exército permanecia em Cuarto Pueblo.


Oito dias depois do massacre na comunidade, nossos esposos descobriram que os soldados haviam saído de nossas casas. Então, nossos maridos foram até o centro, por onde o exército entrou primeiro. Segundo eles, os animais estavam comendo seus próprios donos. As casas e os donos já haviam sido queimados. Então as galinhas, os cachorros e os porcos... estavam todos ali comendo seus donos.


O medo se apossou de todos nós que pudemos sobreviver e nos esconder. É assim que permanecemos embaixo da montanha e como surgiram as Comunidades de Povoação em Resistência (CPR).

Relatos de jovens testemunhas (Guatemala parte 2)

Quando conheci Esperanza Ramírez Pablo, em 2003, ela tinha 20 anos e era professora em Primavera del Ixcán, pequena comunidade formada por cerca de 300 famílias.

Num texto publicado em 1999, descobri que Esperanza havia escrito uma carta aos 11 anos contando a seguinte história:
Em minha comunidade, uma senhora tinha dado à luz um filho havia pouco tempo quando tivemos que sair em emergência porque o exército estava próximo à Comunidade. Naquele dia, ela teve de sair correndo, sem poder levar suas coisas.

Os soldados vinham tão perto que viram a mulher e a seguiram. Muito angustiada, ela se preocupava sobretudo com o filhinho que carregava nas costas. Sem entender o que estava acontecendo, ele chorava e chorava sem descansar e isso fazia com que os soldados soubessem por onde a senhora caminhava.

Ela não podia dar de mamar nem tranquilizar seu filho. Até que se meteu em uma valeta por onde corria um pequeno riacho que fazia um pouco de ruído. Ali, ela aproveitou para dar de mamar à criança, pensando que estavam a salvo.

Se espantou quanto ouviu os soldados. O que ela fez lhe doeu muito, mas pensou por uns segundos que não havia outra saída: deixou ali mesmo a criança e seguiu correndo para a montanha.

Os soldados chegaram aonde estava o menino, levantaram-no e golpearam-no forte contra as pedras. Ele morreu dessa maneira e foi deixado ali quando os soldados se foram.
Muitas outras crianças presenciaram cenas traumatizantes durante os conflitos armados. No livro Masacres de la selva, de Ricardo Falla, descobri um trecho em que um pequeno garoto conta como presenciou o assassinato de uma mulher durante o massacre em Santa María Tzejá no dia 15 de fevereiro de 1982:
Havia uma mulher grávida. Partiram-lhe o estômago e tiraram-lhe o filhinho. Cortaram a cabeça de um outro (homem) e a meteram no estômago da mulher. Um menininho pôde escapar, se enfiou em um lugar e contou o que haviam feito à sua mamãe.
Para quem nunca passou por situações como as narradas acima, é difícil imaginar as consequências psíquicas com que tanto crianças quanto adultos perseguidos pelos soldados tiveram que conviver. Mesmo depois de muitos anos, as memórias dos acontecimentos trágicos causados pelo exército permanecem frescas entre os sobreviventes dos tempos de guerra.

Os desenhos a seguir, feitos por Edgar Monzón Alvarado, com 25 anos em 2003, demonstram isso. O autor das figuras passou toda a sua infância fugindo dos kaibiles (soldados) e das patrulhas civis entre as montanhas do estado de El Quiché.

O país do medo (Guatemala parte 1)

Poucas vezes senti tanto medo quanto na Guatemala em setembro de 2003. Depois de seis meses de pesquisas teóricas, voei para lá com o objetivo de colher impressões pessoais e entrevistar pessoas-chaves para concluir meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso): um livro-reportagem sobre a guerra civil no país.

O conflito durou oficialmente 36 anos, desde um golpe de Estado na década de 1950, até o acordo de paz assinado em dezembro de 1996. De forma bem resumida, o país ficou dividido entre guerrilheiros de um lado; oligarquia, exército e grupos paramilitares ligados ao aparelho estatal do outro. Em 1999, porém, Christian Tomuschat, coordenador da Comissão para o Esclarecimento Histórico (CEH), formada pela Organização das Nações Unidas (ONU), disse que as origens dos conflitos estavam ligadas às injustiças econômicas, sociais e raciais da Guatemala.

A CEH documentou 42.275 casos de mortes e desaparecimentos durante os conflitos armados, dos quais 23.671 foram execuções arbitrárias, frequentemente com típicos traços de crueldade do exército. Segundo estimativas extra-oficiais, o número é muito maior: em torno de 200 mil - na maioria campesinos ou outros civis.

Enquanto apurava os dados e lia ou escutava as histórias dos protagonistas do conflito, era comum eu me perder na transição entre estudante, repórter, brasileiro, aventureiro ou mero curioso. Minha única identidade constante era a de ser humano – o que ficou bem evidente durante toda a viagem.

Apesar de já terem se passado sete anos, ainda é difícil expressar a intensidade do que senti ao ouvir os relatos de sobreviventes contando como suas famílias foram aprisionadas e queimadas vivas dentro de uma igreja, por exemplo. Ou ao escutar a história de um ex-traficante de drogas da capital. Ou ainda o calafrio ao entrevistar um guerrilheiro legendário que havia sido dado como morto pelo exército seis ou sete vezes.

Violência e impunidade

Entretanto, não foram as histórias do passado que me fizeram ter tanto medo enquanto estive na Guatemala. Já nos primeiros dias, vi uma multidão de seguranças particulares armados nas ruas, me inteirei sobre sequestros e assassinatos de jornalistas e juízes, e descobri que apenas 3% dos homicídios eram sequer investigados.

Como não conseguia disfarçar minha “cara de gringo” nem esconder a mochila com câmera fotográfica e lentes teleobjetivas, eu pensava todos os dias: “É hoje que vou ser assaltado ou sequestrado.”

Para piorar, na primeira semana que passei na capital, fui hospedado por uma funcionária do Comitê de Direitos Humanos da Guatemala (CDHG). Ficar na casa dela, no Barrio 21, era como estar no Rio de Janeiro para escrever sobre policiais e traficantes e se alojar na casa de alguém no Morro do Alemão.

Também visitei outras regiões, incluindo uma comunidade de refugiados em El Quiché, o estado mais castigado pela guerra civil. Pude ver não só as belezas naturais de Altitlán, mas também descobrir histórias de massacres nos arredores – contadas principalmente por um médico forense dos Estados Unidos. Por último, tive o alívio de passar dois ou três dias tranquilos contemplando as ruínas maias de Tikal, no nordeste do país.

O resultado de toda a pesquisa e das centenas de fotos foi um livro-reportagem chamado O país do medo – a Guatemala de injustiça, violência e impunidade, cujo destino final foi alguma estande da biblioteca do Centro Universitário de Maringá (Cesumar). Para você que nunca poderá encontrar a obra numa livraria, espero que bastem os relatos que ainda farei aqui de alguns dos episódios mais marcantes daquela viagem.

Recepcionista num navio cruzeiro no Mediterrâneo


Eu não tinha ideia do que me esperava quando cheguei com uma mochila enorme nas costas e o passaporte italiano novinho no bolso em Palermo, na Sicília, em dezembro de 2005.

Eu era o novo contratado da Costa Crociere, empresa com uma das maiores frotas de navios cruzeiros do mundo. Quando vi o gigante Costa Fortuna ancorado, fiquei espantado com a dimensão da “nave” e não pude evitar o frio na barriga. Me mudado várias vezes eu já tinha, mas nunca para um navio.

Quatorze andares, centenas de cabines, vários restaurantes, piscinas, lojas e uma série de outras atrações. Havia até teatros, cassino e spa a bordo. Nos primeros cinco dias, a embarcação permaneceu ancorada na capital siciliana, enquanto uma revisão geral era feita em praticamente todos os compartimentos. Nesse período, aproveitei para conhecer o que e quem podia e participei de um treinamento intensivo com os demais dez front desk operators, meus colegas de trabalho da recepção.

Dias antes do Natal, o Costa Fortuna partiu com cerca de 1700 tripulantes e 3300 passageiros. Assim que nos afastamos da terra firme, foi feita uma simulação de incêndio, o que serviu para “quebrar o gelo” entre tripulantes e turistas. Horas mais tarde, éramos uma verdadeira cidade em alto-mar – ainda que um mero pontinho visto lá de cima, no céu.

Os contras

Não demorou muito para que o encantamento fosse substituído pelo estresse. A recepção ficava aberta 24 horas por dia. Em frente a ela, filas de passageiros de todas as idades e com os mais variados anseios eram formadas a maior parte do tempo. As pessoas faziam perguntas sobre direções ou o cardápio, iam registrar cartões de crédito para o pagamento, reclamavam sobre defeitos nos banheiros de suas cabines e por aí ia.

Como front desk operator, eu tentava resolver o problema de todos falando seis línguas e mantendo sempre a calma. Sempre de terno e gravata e em pé. Nove, dez, até quinze horas por dia.

Além da sobrecarga no trabalho, tinha de conviver com o cinismo e a falta de cordialidade dos superiores. Minha própria chefe, a chefe dela e o chefe da chefe dela, por exemplo, pareciam mais estar contra os funcionários do que a favor. Existia uma hierarquia entre os tripulantes, com oficiais predominantemente italianos no topo, uma série de trabalhadores de várias partes do mundo no meio e principalmente chineses, indianos e filipinos da cozinha e lavanderia embaixo da pirâmide.

Confinado

Não tinha como escapar da realidade. Não se podia ir caminhar no parque, sair para tomar um sorvete, ir ao cinema ou encontrar os amigos num bar. Mesmo se ficasse doente, não tinha para onde fugir nos próximos cinco meses, quando venceria meu contrato.

Vivendo confinado, percebi que, em poucos dias, as pequenas decepções tomaram grandes proporções – ao contrário da cabine de uns 15 m2 (incluindo banheiro) que eu dividia com um colega italiano de humor inconstante.

Para piorar, a academia disponível para os 1700 tripulantes era um fiasco, com um único aparelho de exercícios para as pernas. Dez minutos de lento acesso à internet custavam um euro. Como se isso não bastasse, eu era obrigado a desperdiçar as poucas horas livres que tinha com programas chatos de treinamento de primeiros socorros e conhecimentos específicos sobre o funcionamento do navio.

Alguns dias, eu trabalhava das 5h às 10h e das 15h às 19h, por exemplo. Considerando que o horário fosse cumprido, imagine o que se podia fazer durante o intervalo das 10h às 15h! Exausto, eu geralmente ia direto para a cama, mas precisava levantar duas horas depois para não perder o almoço.

Naquela viagem, passamos pela Espanha e África antes de voltarmos a Savona, na Itália, sete dias depois. Apesar da correria e do cansaço, tive a oportunidade de andar algumas horas em Túnis (Tunísia), Trípoli (Líbia) e Malta. Pelo menos para dizer que valeu a pena.

Depois que todos os turistas desembarcaram em Savona, seguimos com novos passageiros até Civitavecchia, perto de Roma, onde desembarquei sem receber um centavo para nunca mais voltar. No dia anterior, eu havia decidido que o primeiro cruzeiro também seria o último. Pelo menos como tripulante.

Sem ter onde dormir em Viena


Depois do sufoco que passamos sendo barrados na viagem à Hungria, Anne e eu voltamos de trem à capital austríaca e pegamos o ônibus para o camping onde havíamos passado as três noites anteriores.

Quando chegamos, ele já estava fechado. Os check-ins encerravam às 22h. Sem ideia de aonde ir e muito menos com dinheiro para pagarmos um hotel no centro da cidade, saímos caminhando pelas ruas da vizinhança.

Minha sugestão era bater nas portas das residências e pedir para que, caridosamente, nos deixassem passar a noite lá. Tudo bem que isso já tinha funcionado em Portugal, mas, cá entre nós, há um abismo entre a hospitalidade lusitana e a austríaca.

Portanto, logo percebemos que isso não daria certo em Viena. Foi então que encontramos um sobrado com uma placa informando que havia quartos para hóspedes. Ou seja, era uma pousada.

Check-in?

Tocamos a campainha várias vezes em vão. Passamos pelo portão aberto, abrimos a porta destrancada e procuramos por alguém na recepção. Ninguém.

Continuamos ousados. Subimos até o primeiro andar, até o segundo e giramos a maçaneta de um quarto no terceiro piso. A porta se abriu e vimos que o quarto, com cama de casal, estava arrumadinho. “É aqui mesmo”, concordamos.

Dormimos muito bem e acordamos cedíssimo para tomarmos um longo banho antes de partirmos – de preferência sem encontrarmos os donos da casa.

Check-out?

Depois do banho, arrumamos a cama e tentamos apagar todos os vestígios da nossa estadia. Nos vestimos, colocamos as mochilas nas costas e, quando íamos descendo sorrateiramente as escadas, a anfitriã nos surpreendeu. Como dois anjinhos, dissemos algo como: “Puxa, íamos procurá-la agora porque chegamos tarde e já temos que ir agora cedo.”

Duvido que ela tenha acreditado, mas não houve estresse, pagamos pelo quarto e fomos embora. O preço era até razoável, mas se soubéssemos que pagaríamos pela cama, teríamos continuado dormindo nela pelo menos a manhã inteira.

Tentando entrar na Hungria sem visto

Alguns anos atrás, fui passear em Viena com Anne, uma namorada alemã. Depois de três ou quatro dias de turismo na capital austríaca, “deu a louca” e decidimos pegar o trem para Budapeste.

Eu sabia que cidadãos brasileiros precisavam de visto para atravessar a fronteira, mas decidimos arriscar sem ele, mesmo. Assim, compramos uma passagem e, com mochilas nas costas, entramos em uma cabine com seis lugares e ali ficamos quietinhos.

Em pouco tempo, o trem parou e alguns policiais entraram. Pelo menos é o que deduzimos, pois não tínhamos coragem de ir até a porta e colocar a cabeça para fora.
A parada foi curta e, assim que a locomotiva voltou a funcionar, entramos um estado misto de alívio e euforia. Pena que durou pouco.

Controle

Os oficiais da imigração húngaros entraram na nossa cabine e, gentilmente, pediram para ver nossos passaportes. À Anne, bastou mostrar a carteira de identidade alemã e podia prosseguir a viagem tranquila.

Eu, no entanto, queria mostrar qualquer coisa – menos o passaporte brasileiro, o qual, na época, era verde. Comecei entregando uma carteira internacional de estudante feita meses antes em Portugal.

Não funcionou. A cara de bobo, o espírito eventureiro de 18 anos e a explicação de que seriam “só duas noites em Budapeste” também foram em vão.

Acabamos descendo na parada seguinte, onde ficamos esperando sentados no chão, escoltados por um soldado que não falava nada além de húngaro, até o próximo trem em direção a Viena passar.

Quando voltamos à capital da Áustria, o camping em que havíamos ficado nas noites anteriores já estava fechado. É assim que começa a próxima história...

Ciganos batedores de carteira na Itália

Com o que você associa a palavra “ciganos”? Se pensou em música, dança e roupas coloridas, não há nada de errado. Entretanto, a realidade desses povos espalhados ao redor do mundo não é… digamos tão colorida assim.

Ao que tudo indica, os ciganos provêm da Índia. No final do século 14, os primeiros grupos chegaram à Europa e continuaram andando para lá e para cá em todo o continente. Seu nomadismo e diversos costumes sempre causaram incômodo às comunidades locais, levando os nazistas a incluí-los na lista negra. Provavelmente, meio milhão deles foram mortos nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

A perseguição não parou por aí, como demonstram recentes ataques a assentamentos de ciganos em determinadas regiões da Itália, França e Irlanda do Norte. Mas será que isso tem ocorrido só por causa dos costumes dessas famílias?

Itália

Proavelmente, entre 60 mil e 90 mil deles vivem atualmente na Itália - pelo menos 3 mil nômades na capital Roma.

Em 2005, assim que cheguei para viver na cidade, fui logo avisado: “Muito cuidado com os ciganos!” Segundo os locais, seria fácil reconhecê-los, principalmente as mulheres com saias longas, chinelos ou sandálias e cabelos compridos.

Uma das suas características culturais é andar em bandos. Muitas vezes, identificá-los é uma questão de auto-segurança, pois estar próximo desses grupos pode significar ficar sem sua carteira ou bolsa – principalmente dentro e ao redor dos ônibus e metrôs.

Tudo bem que 97% das crianças ciganas não frequentam a escola, que a maioria dos adultos é analfabeta, que a expectativa de vida deles é por volta dos 50 anos e que as condições precárias dos assentamentos e barracas se somem a outros inúmeros fatores que os empurram para as margens da sociedade. Mas o que você vai pensar quando for a Roma e for roubado por um deles?

Indignação

Ao longo dos meses em que vivi na capital italiana, me acostumei a escutar relatos de turistas inconformados por terem perdido dinheiro, passaporte e outras coisas durante os passeios na cidade. A indignação só aumentava porque tanto cidadãos quanto Estado estão cansados de saber do problema, mas até hoje não encontraram nenhuma solução. Houve, porém, uma tarde em que minha revolta chegou ao ápice.

Assim que subi no ônibus em direção ao trabalho, vi que duas mulheres e uma moça, todas ciganas, estavam em pé, com aquele olhar de caçadoras de níqueis. Fiquei também em pé, próximo da porta dos fundos, no meio do trio e de olho nas três.

Eu achava que, a qualquer momento, pegaria uma delas no flagra tentando abrir a bolsa ou mochila de alguém distraído, mas o que aconteceu foi ainda pior.

A mais velha do grupo tinha um bebê no colo. Apoiada no braço esquerdo da mulher e coberta com um pano, a criança foi ficando cada vez mais próxima de mim conforme a mulher dava pequenos passos na minha direção.

De repente, senti minha carteira se mexer, roçando minha coxa. Instintivamente, coloquei a mão no bolso e me surpreendi com outra mão tentando entrar ali. Na verdade, a cigana estava com o bebê amarrado! O braço dela, coberto pelo pano, estava livre, leve e solto para ela meter a mão na carteira ou dentro da bolsa de quem ela quisesse.

Indignado, fiz um escândalo como um típico italiano, fazendo com que o motorista parasse o ônibus e as três descessem. Depois de chegar à rua, a figuraça ainda cuspiu em minha direção. Não acertou! :-P

Algumas semanas depois, vivi uma situação semelhante em um ônibus lotado, esprimido entre desconhecidos e flagrando um homem também tentando enfiar a mão no bolso dianteiro da minha calça jeans. Novo escândalo, nova parada de ônibus, novo ladrão descendo inconformado.

Portanto, quando for a Roma, Barcelona, Paris e outras cidades europeias onde ouvir “Cuidado com os ciganos!”, fique realmente muito atento.

Escravidão na Itália

Foi no início do verão de 2000 que tudo aconteceu. Morando na Alemanha e ansiosos para finalmente conhecermos a Itália, minha irmã e eu procuramos pela internet alguma oportunidade de viver e trabalhar em meio à “buona gente”.

Com muita sorte, encontramos um anúncio de Fabio, um cara de uns 30 anos que estava recrutando pessoas para trabalharem quatro horas diárias em seu sítio em troca de cama e comida.

Segundo o anúncio e os e-mails que trocamos com o simpático italiano, tudo seria perfeito. A propriedade ficava numa região montanhosa próxima de Urbino, uma bela cidade universitária no leste do país. De acordo com o Fabio, ele e os pais produziam uma série de alimentos “biológicos” e viviam em harmonia com a bela natureza na sua propriedade.

Além do mais, combinamos que, por cada hora de trabalho extra, receberíamos 8 dólares. Assim, decidimos passar três agradáveis meses ali e ainda juntar uma grana para a próxima etapa do nosso ano de mochilão.

Bem-vindos?

Quando chegamos em Urbino, telefonei conforme tínhamos combinado e ficamos esperando Fabio ir nos buscar. Quarenta minutos depois, um carro foi estacionado na nossa frente. “Será que é ele?”, nos perguntamos. A porta do motorista se abriu e um sujeito saiu. Sem nos cumprimentar, abriu o porta-malas, olhou para nós e disse: “Andiamo!” Parecia que estávamos no início de um filme de terror como O Albergue ou O Motel.

Aquele sujeito vesgo e de poucas palavras era mesmo Fabio. Depois de percorrermos 20 km em silêncio, chegamos ao sobrado em cujo segundo andar ele vivia com os pais. Pareciam o gigante a bruxa da floresta: um senhor troncudo de mãos grossas e com um dedo a menos, e uma senhora com olhar maligno que tentava dissimular se fazendo de boazinha. Mas não éramos bobos.

O lar

Nosso quarto tinha uma cama de casal que afundava no meio. Toda a comida era regulada. Era tão grave que minha irmã decidiu fazer dieta para ceder um pouco de suas porções para eu não passar (tanta) fome. E tinha algo ainda mais grave: os três fumavam. Faziam isso inclusive na cozinha, enquanto preparavam as refeições e logo depois de comerem, enquanto assistiam a futebol na pequena televisão ao lado da mesa. Me lembro como se fosse ontem da cena da bruxa com o cigarro na boca enquanto preparava a salada de alface.

A paisagem natural da região era, de fato, muito bonita. O sítio, entretanto, não. Da casa às plantações, tudo era muito mal cuidado, dando a sensação de ter várias partes abandonadas. Pra você ter uma ideia, havia quatro ou cinco carros apodrecendo ao ar livre - provavelmente porque eles não estavam dispostos a pagar algum imposto ou a levá-los até um ferro-velho na cidade.

Quanto ao trabalho, não nos contavam o que faríamos no dia seguinte. Na primeira noite, perguntei durante o jantar. “Agora, comemos; depois falamos de trabalho”, foi a resposta ríspida do pai. Mas tudo que ele disse "depois" foi a hora em que deveríamos estar em pé de manhã. Após isso, seguiram os três com a atenção voltada ao jogo de futebol na TV.

Praticamente, ninguém conversava conosco. Até quando estávamos nas plantações de tomates ou de uvas, por exemplo, o gigante da floresta se limitava a movimentar as mãos ou ferramentas e murmurar coisas como “like this” ou “after”, como se fôssemos de planetas diferentes. Detalhe: eu já falava italiano. Apesar disso, naquele contexto, não seria difícil para um brasileiro entender o que “così” e “dopo” ou “poi” significam.

Não nos informavam sobre nossas horas de trabalho nem nos davam oportunidade de planejar nossos dias. Nos usavam duas ou três horas de manhã; depois o mesmo tanto à tarde. Nos intervalos, não podíamos usar internet nem telefone. A cidade era longe demais para irmos até lá a pé. E, claro, só tínhamos três refeições diárias – sempre com eles, a TV ligada e os cigarros acesos.

Fuga

Encurtando a história, no final do segundo dia, um casal estadunidense que vivia no primeiro andar do sobrado se aproximou de nós. Eles já estavam acostumados com jovens estrangeiros decepcionados como nós e se prontificaram a nos ajudar a, literalmente, fugir dali.

Ligaram para um amigo em outra fazenda e pediram que ele nos acolhesse. Quando? O mais rápido possível. De repente, bateram à porta. Fabio e o pai tinham escutado nossas conversas e desceram indignados para evitar que fôssemos embora dali.

A discussão foi feia, mas, na manhã seguinte, saímos sem falar com nenhum deles e Bruce, o estadunidense solícito, nos levou até a cidade, de onde seguimos em caronas até Pescara, onde vivemos “felizes para sempre” por duas semanas na casa do Rafaelle – este, sim, um “cara 10” com esposa, filho, casa, hábitos e amigos adoráveis!

Roubado em Cochabamba

Eram menos de 7h da manhã quando eu e meu amigo Guilherme chegamos na estação rodoviária central de Cochabamba, na Bolívia.

Cada um com uma mochila nas costas e ambos perdidaços, saímos procurando, de porta em porta, um hotelzinho barato pra passarmos as próximas 3 noites na cidade.

Muito caro, lotado, feio demais... cada vez que entrávamos em um hotel, encontrávamos uma nova razão pra voltarmos à rua em busca de algo melhor.

Como as ruas estavam praticamente desertas, notamos claramente que alguém nos seguia pela calçada. Olhamos desconfiados quando o senhor nos alcançou e questionou sobre nossa nacionalidade e o que fazíamos ali àquela hora do dia, mas me acalmei assim que ele mostrou um crachá se apresentando como oficial da polícia.

“Vocês ainda não se registraram no escritório de imigração da cidade?”, nos perguntou o tal policial. Respondemos, surpresos, que não. Cochabamba andava tendo sérios problemas com o tráfico de drogas, especialmente por causa de jovens brasileiros disfarçados de turistas. Pelo menos foi essa a história que o cara nos contou. Nós, apesar de confusos, a engolimos.

Em seguida, o sujeito pegou o celular e ligou pra alguém. Ao desligar, nos disse: “Uma viatura está vindo nos levar até o escritório pra vocês se registrarem agora”. Poucos segundos depois, ele sinalizou pra um taxista. O motorista parou, conversou com o tal policial e este então nos falou: “Vamos, entrem porque a viatura deve demorar.” Entramos.

Claro que sentíamos que alguma coisa não estava em ordem, mas o que podíamos fazer? Depois do Guilherme e do oficial, me sentei no banco de trás do taxi, fechei a porta e o motorista arrancou.

Revista

O oficial era bem simpático e, aos poucos, fui me tranquilizando. Amigavelmente, ele fez uma série de perguntas, como quanto tempo queríamos ficar na cidade, aonde iríamos depois, quanto dinheiro trazíamos e onde o guardávamos.

Como quem não quer nada, passou a revistar a bolsa do meu amigo, supostamente só pra verificar se não trazíamos mesmo entorpecentes. Por fim, pediu pra ver nossos documentos e, quando abri minha bolsinha com o passaporte e 6 notas de U$50, ele contou o dinheiro na minha frente e devolveu tudo direitinho.

Convencido da nossa boa índole, o senhor nos disse que nos pouparia do transtorno de ir até o escritório fazer o tal registro e pediu ao taxista que nos levasse de volta à região onde tinha nos pegado.

Alívio?

Paramos em frente a um hotel que o policial recomendou e, alegres, saímos do carro. Antes de partir, ele ainda nos desejou uma boa estadia e alertou que tomássemos cuidado com nossas coisas porque a cidade estava infestada de ladrões.

Entramos no hotel, fizemos o check-in e nos sentamos pra aguardar até que nosso quarto estivesse limpo. Foi nesse ínterim que o Guilherme, revirando sua mochila, começou a resmungar: “Cadê minha câmera? Minha câmera sumiu!” Cada vez mais impaciente, ele seguiu procurando, até tirar sua própria conclusão: “Foi aquele policial. Ele roubou minha câmera!”

“Que absurdo”, eu disse, já bravo com o irresponsável do meu companheiro de viagem. O dono do hotel se intrometeu e lhe contamos o que havia acontecido minutos antes. Depois de um suspiro, ele tirou os óculos, fez aquela cara de “já vi este filme antes” e nos disse: “Compañeros, lo siento, pero aquí no hay policía en la calle.”

“Caindo a ficha”

Ou seja, aquele homem não era policial coisa nenhuma, seu crachá era falso, a história das drogas e do registro era lorota, o telefonema tinha sido pro comparsa taxista, a câmera do Guilherme tinha sido roubada durante a revista na sua mochila e... “Opa, meu passaporte e meu dinheiro!”

Abri a bolsinha com o coração acelerado. O passaporte estava lá, mas os dólares não eram mais os mesmos. Apesar de eu não ter tirado os olhos deles por nenhum segundo enquanto o senhor os contava dentro do taxi, ele fez U$250 desaparecerem. “Pelo menos ele não levou tudo”, pensei alto, vendo a única nota de U$50 que tinha restado.

Andando de trem sem pagar


Viajar na Europa sem pagar é fácil; difícil é lidar com a própria consciência e com o medo de ser pego.

Cada cidade e meio de transporte tem características específicas que facilitam ou dificultam esse pequeno delito. Quanto menor for a preocupação com a ética, mais fácil fica, pois o risco de ser pego é, matematicamente, bem pequeno. Tudo bem, o risco é pequeno, mas o flagrante é inesquecível.

Aventura arriscada

Um exemplo disso aconteceu uma vez em que percorria um trajeto de 30 km com minha amiga hondurenha e também intercambista Karen. Não só gostávamos de economizar, mas também o fazíamos por necessidade. Por isso entramos no trem sem pagar os cerca de oito euros que, na época, custava a passagem.

Apesar de já estarmos acostumados com a tensão, aquele dia a adrenalina nos mostrou que havíamos abusado da sorte ao limite.

Antes do que esperávamos, o controlador chegou ao nosso vagão. Rapidinho, entramos juntos no banheiro e ficamos quietos. Claro que, logo em seguida, alguém bateu na porta, mas não queríamos abri-la de jeito nenhum.

“Ele vai embora”, torcíamos. Em vão. Minutos depois, o sujeito continuava batendo na porta. Claro que não era a primeira vez que lidava com espertalhões como nós.

Procurando uma saída

Bolamos uma estratégia. Resistiríamos mais alguns minutos, até que o trem parasse na nossa cidade. Assim que as portas da locomotiva se abrissem, o controlador de bilhetes precisaria sair dela por cerca de um minuto. Eu o veria pela janela do banheiro e, rapidamente, correríamos para a porta mais distante, já que estávamos entre duas portas de saída do trem.

Seguimos o plano à risca. Depois de frearmos, vi o vulto do controlador a poucos metros de mim, Karen e eu abrimos o banheiro e corremos para a outra porta, por onde saltamos com nossas mochilas em direção à liberdade.

Purgatório

Só não contávamos com um outro controlador que estava, já na plataforma, nos esperando. Me senti como se estivesse no purgatório. “É agora que vamos ao céu ou ao inferno”, pensei.
Primeiro, veio a bronca. Karen e eu fizemos de conta que não entendíamos nada – coisa manjadíssima - , mas não convencemos o sujeito. Ele insistia que pagássamos uma multa. “Ou vocês pagam ou chamo a polícia agora”, nos ameaçou.

Pronto. Era o que faltava para Karen cair no choro. Se lambuzando em lágrimas, a baixinha hondurenha implorava, numa mistura de espanhol e alemão, para que o homem perdoasse a estupidez de dois jovens intercambistas que nunca mais fariam aquilo.
ão era encenação.

Nem o coração gelado do alemão pode resistir aos prantos da menina. Até eu fiquei preocupado com minha melhor amiga da época vendo que o desespero dela n

Antes que ela desmaiasse ali na plataforma, o controlador nos liberou, apitou para o motorista, entrou no trem e partiu.

Pelo que me lembro, a Karen nunca mais andou de trem, metrô ou ônibus sem pagar. A Karen…

Presos no aeroporto em Frankfurt

Depois de duas semanas passeando pela Dinamarca e Inglaterra, minha irmã e eu voltamos à Alemanha pra continuarmos nossas aventuras de quase um ano como mochileiros na Europa.

Assim que desembarcamos no enorme aeroporto de Frankfurt, seguimos em direção à saída e nos posicionamos naquela santa fila em cujo final alguém poderá mudar o curso de toda a sua vida com um simples carimbo.

A maioria dos passageiros passa sossegada. Alguns sofrem mais um pouco, suam, tremem, tiram uma porrada de papelada da bolsa e mostram até o dinheiro que estão levando pra convencer os oficiais da imigração a deixá-los passar. Outros, porém, por mais que se desesperem, se humilhem, chorem, esperneiem e contem que são irmãos do presidente ou filhos do Papai Noel, não conseguem seguir adiante.

Viajar com o passaporte brasileiro nunca foi, digamos, relaxante. Até esse dia, no entanto, eu nunca tinha sido barrado por um daqueles oficiais. Nessa tarde, porém, o que ouvi ao chegar na Alemanha não foi um „Willkommen“, mas sim um “Kommen Sie bitte mit”, que quer dizer: Me acompanhe, por favor.

Acompanhei um sujeito e minha irmã, que estava na fila ao lado, acompanhou o outro. Como é típico de histórias como estas, neste relato também tem a tal da ‘salinha’. É pra lá que fomos levados.

Presos

Nos sentamos e ficamos esperando em frente à porta. Não lembro se ela estava aberta ou fechada, mas me recordo de que não éramos os únicos à espera. Havia também uns 5 colombianos na mesma condição, com os destinos nas mãos de alguns alemães – o que, obviamente, não era muito animador.

Estávamos presos. Não estávamos algemados nem trancados em uma cela, mas nossos passaportes tinham sido sequestrados e nenhum de nós era louco ou desesperado ao ponto de tentar escapar numa hora daquelas.

O tempo passava e nada de ninguém vir falar com a gente. Estavam esperando um tradutor de português-alemão ser encontrado. Por sorte, resolveram descobrir que, depois de ter sido intercambista por um ano no país deles, eu também falava alemão. Assim pudemos começar o interrogatório sem mais demoras.

Se você nunca passou por uma situação assim, meus parabéns. Muitas vezes, a conversa na salinha termina em planos de volta pra casa no primeiro ou segundo voo, mas nós dois tivemos mais sorte dessa vez.

Explicações

Contamos que éramos estudantes universitários e que, depois dos intercâmbios na Dinamarca e na Alemanha, tínhamos decidido trancar o curso por um ano e ir descobrir mais do mundo começando na Europa.

Tivemos que contar tudo o que havíamos feito desde nossa chegada em Portugal quase 3 meses antes e convencê-los de que nosso plano era mesmo seguir viajando entre um país e outro ao invés de nos fixarmos em algum deles de forma ilegal.

Acabamos mostrando tudo que tínhamos em mãos: nossas carteirinhas de estudantes , as passagens de ida pra Índia dali a 4 meses e a de volta ao Brasil dali a 8 meses, carta da minha antiga família hospedeira e até nossos diários, nos quais relatávamos nossas andanças e, por sorte, colávamos vários dos bilhetes das passagens.

Ainda por cima, dei o endereço da minha namorada alemã e contei que tinha uma conta num banco que eu só podia movimentar pessoalmente na época - sem cartão ou internet, como hoje.

Livres

Depois de umas duas horas, os oficiais tiveram a mesma reação que você provavelmente está tendo agora: “Ai, tá bom, chega!”, eles devem ter pensado. Foram até gentis e bem didádicos com as explicações sobre o Acordo do Schengen, explicando-nos que podíamos passar só 90 dias em todos os países que faziam parte daquele acordo. Contando a dedo, nossos passaportes indicavam que já tínhamos usado 68 desses dias. Por isso estávamos ali.

Escapamos, mas seguimos à risca as instruções pra conseguirmos uma prorrogação do nosso visto. E deu certo. Será que os colombianos que ficaram lá também tiveram essa sorte?


A melhor história de caronas


Esta história começou numa manhã quente de junho de 2000, quando minha irmã e eu fomos até a saída de Milão, na Itália, com mochilas nas costas e bandeira do Brasil na mão, desafiando nosso destino. Depois de dois dias procurando em vão um trabalho em restaurantes e hotéis da cidade italiana, tínhamos decidido, naquele dia, tentar a sorte na Suíça.

Com 20 e 19 anos, respectivamente, não tínhamos muitos planos. Na verdade, nem sabíamos direito como a Suíça era e nunca tínhamos ouvido antes o nome da região pra onde decidimos ir aquele dia – do qual, aliás, nem nos lembramos mais hoje.

Tínhamos em mãos passagens pra Índia e alguns euros pra sobrevivermos lá, mas ainda faltavam três meses pra viagem. Precísavamos dar um jeito de encontrar um lugar pra morar e comer enquanto o dia do voo não chegava.

Nossa intenção era conhecer algum fazendeiro que nos oferecesse, por três meses, cama, comida e alguns francos suíços em troca do duro trabalho de alguma plantação de maçãs, uvas ou o que fosse. Detalhe: nossos vistos eram de turismo, o que dobrava a chance de não dar certo.

Bendito furgão azul

Depois de duas ou três caronas por curtos trajetos, nos encontrávamos já à tarde no norte da Itália, bem próximos da fronteira com a Suíça. Mental e verbalmente, deixávamos o otimismo combater o cansaço, a fome e a dúvida de que aquela loucura daria certo.

De repente, um furgão parou próximo à minha irmã e uma loira de cabelos curtos começou a falar com ela pela janela do banco de passageiros dianteiro. Dentro do automóvel estavam a Ketty, professora de dança, o marido Serge, artista plástico, e os filhos Aaaron (3), Shanna (6) e Mahran (11), além da cadela Rotweiller Lia.

Nos juntamos à família e seguimos viagem. Após algumas horas, o sol já estava indo embora e Ketty nos disse: “Já está ficando tarde. Vocês podem vir conosco e dormir na nossa casa. Amanhã ajudo vocês a procurar um trabalho na redondeza”. Claro que topamos.

Paraíso nos Alpes

Quando chegamos a Le Levron já era noite. Só na manhã seguinte, uma surpresa: olhamos pela sacada ao lado da cozinha e demos conta de que estávamos num pequeno vilarejo nos Alpes. Uma cena de filme.

Nesse dia, Serge partiu com as crianças em direção à França, onde passaria duas semanas na casa dos pais dele. Enquanto as malas eram feitas, Ketty telefonava pra conhecidos da região em busca de um trabalho para nós.

No sábado, ela propôs: “Tenho um curso de uma semana na Bélgica e preciso deixar a cadela com alguém. Se quiserem, vocês podem ficar aqui tomando conta dela e da casa. Talvez alguma das pessoas pra quem liguei volte a telefonar e vocês consigam algum trabalho.”

Deu certo. Quando Ketty voltou de viagem, já estávamos, de fato, trabalhando como garçons numa estação de esqui vizinha. Depois, conseguimos uns “bicos” como zeladores com umas vizinhas queridíssimas que falavam português.

Laços

No final das contas, acabamos passando três meses naquele pequeno paraíso. Minha irmã viveu o tempo todo com Ketty e ganhou uma grana cuidando das crianças dela. Eu passei a maior parte do tempo na casa do Nicolas, o vizinho que já tinha vivido no Brasil, e dei uma ajeitada no jardim da Ketty.

Conhecemos o vilarejo inteiro, fizemos algumas amizades e nos apegamos à família de tal forma que, assim que voltamos da Índia, retornamos ao vilarejo pra passarmos o Natal e Ano Novo na companhia da nossa amiga Ketty, do marido e dos nossos “irmãozinhos”.