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O par de chinelos do menino indiano

Durante os 35 dias vividos no pequeno vilarejo de Pushkar, no deserto estado do Rajastão, na Índia, conheci um menino de rua.

Provavelmente condenado pela sua casta inferior na sociedade hindu, ele acompanhava um grupo parecido com ciganos e vivia pedindo dinheiro na principal rua da cidade, próxima do lago sagrado.

O garoto tinha 11 anos e se sobressaía pela esperteza e fluência em inglês. “Aprendi falando com os turistas”, contava o pequeno prodígio.

Encantado pela vivacidade e pelo carisma do moleque, lhe propus um pacto para selar nossa “amizade”: “Vamos ser amigos, mas eu nunca vou te dar dinheiro.” Ele concordou.

Sempre que nos encontrávamos, nos divertíamos contando as novidades e repartindo um pouco daquela energia que ele parecia sugar do sol do deserto para gastar depois que escurecia.

Por falar em escurecer, você deve saber que, nos desertos, a temperatura cai bastante durante a noite. No Rajastão, não era diferente. E meu jovem amigo vivia com uma camiseta horrorosa regata, uma bermudinha e descalço. Por isso, um dia, lhe perguntei se queria um par de sapatos.

Claro que ele quis e lá fomos nós dois procurar um par de chinelos. Ele escolheu o que queria, experimentou e saiu da loja todo faceiro com os pés calçados.

Surpresa

No dia seguinte, no mesmo lugar onde sempre nos víamos, encontrei uma molecada brincando e pedindo dinheiro para os transeuntes, mas nada do meu amiguinho. Seria até normal não encontrá-lo, já que ele corria como um foguete por todos os lados.

Por isso, não dei muita importância, mas, de repente, um outro moleque veio até mim, me apontou o nosso amiguinho, o qual tentava se esconder em meio à multidão.

“Look look! He selling shoes!”, derurou o pequeno informante.

Um dia depois de ter ganhado o par de chinelos, o garoto os tinha vendido e estava novamente descalço…

Donato: o caminhoneiro italiano


Já fazia duas horas que minha irmã Lise e eu torrávamos à beira da Autostrada. Já tínhamos percorrido algumas centenas de quilômetros desde Frankfurt, na Alemanha, até Verona, na Itália. Não seria difícil chegar antes de escurecer em Urbino, no leste do país. Pelo menos era isso que havíamos pensado quando nossa carona alemã nos deixou no acostamento da rodovia.

Pegar carona nunca tinha sido fácil. Porém, jamais tínhamos passado tanto tempo sem que um carro sequer parasse pelo menos pra nos levar até a cidade seguinte. Naquela tarde quente de verão, o único automóvel que havia estacionado até então tinha sido uma viatura, cujos polizioti puxaram nossa orelha porque pegar carona na rodovia era proibido.

Poucos minutos depois, uma enorme carreta branca diminuiu bruscamente a velocidade e parou no acostamento. Lise e eu corremos até a cabine com as mochilas pesadas nas costas e o suor pingando no rosto. Quando a verdadeira porta da esperança se abriu, tomamos um susto. Donato, o provinciano italiano com cara de malandro e barba por fazer no volante não dava uma das melhores impressões, digamos assim...

“Entramos ou não entramos?”, nos perguntamos sem abrir a boca, com uma mistura de medo e excitação em nossos semblantes. Quisemos saber aonde ele iria. “Livorno”, respondeu. Madre mia, onde ficava aquilo? “Na costa oeste.” Sendo sensatos, éramos obrigados a recusar, pois rumávamos exatamente para a direção contrária. Porém, o espírito aventureiro e o medo de passarmos a noite acampando à beira da estrada nem tomou conhecimento da sensatez. Sentados ao lado de Donato no alto da carreta, vibramos juntos com o motor. “Andiamo a Livorno allora!”

Nas horas seguintes, Donato tentava ganhar nossa confiança esbanjando simpatia – o que seria mais fácil se seus interesses pela minha irmã fossem menos nítidos. De qualquer forma, ficamos aliviados quando ele nos contou que morava com a esposa e os dois filhos e aceitamos o convite para jantarmors e passarmos a noite na casa deles.

A familia nos recebeu com afeição e certa empolgação. No dia seguinte, feriado na cidade, fomos todos à praia e, à noite, assistimos ao espetáculo de fogos de artifício à beira da água.

Donato procurava ao mesmo tempo um emprego na cidade para nós e uma carona até Urbino, onde já tínhamos um trabalho à nossa espera. Infelizmente, não obtivemos sucesso em nenhuma das duas coisas, mas passamos três dias inesquecíveis na praia, sendo mimados por Donato e sua família. Na casa da família, até retirar os copos da mesa nos havia sido proibido!

Antes de partir, Donato nos presenteou com um pequeno dicionário de alemão-italiano. Dez anos depois, o presente continua na estante, imortalizando não só palavras, mas também boas recordações.

Recepcionista num navio cruzeiro no Mediterrâneo


Eu não tinha ideia do que me esperava quando cheguei com uma mochila enorme nas costas e o passaporte italiano novinho no bolso em Palermo, na Sicília, em dezembro de 2005.

Eu era o novo contratado da Costa Crociere, empresa com uma das maiores frotas de navios cruzeiros do mundo. Quando vi o gigante Costa Fortuna ancorado, fiquei espantado com a dimensão da “nave” e não pude evitar o frio na barriga. Me mudado várias vezes eu já tinha, mas nunca para um navio.

Quatorze andares, centenas de cabines, vários restaurantes, piscinas, lojas e uma série de outras atrações. Havia até teatros, cassino e spa a bordo. Nos primeros cinco dias, a embarcação permaneceu ancorada na capital siciliana, enquanto uma revisão geral era feita em praticamente todos os compartimentos. Nesse período, aproveitei para conhecer o que e quem podia e participei de um treinamento intensivo com os demais dez front desk operators, meus colegas de trabalho da recepção.

Dias antes do Natal, o Costa Fortuna partiu com cerca de 1700 tripulantes e 3300 passageiros. Assim que nos afastamos da terra firme, foi feita uma simulação de incêndio, o que serviu para “quebrar o gelo” entre tripulantes e turistas. Horas mais tarde, éramos uma verdadeira cidade em alto-mar – ainda que um mero pontinho visto lá de cima, no céu.

Os contras

Não demorou muito para que o encantamento fosse substituído pelo estresse. A recepção ficava aberta 24 horas por dia. Em frente a ela, filas de passageiros de todas as idades e com os mais variados anseios eram formadas a maior parte do tempo. As pessoas faziam perguntas sobre direções ou o cardápio, iam registrar cartões de crédito para o pagamento, reclamavam sobre defeitos nos banheiros de suas cabines e por aí ia.

Como front desk operator, eu tentava resolver o problema de todos falando seis línguas e mantendo sempre a calma. Sempre de terno e gravata e em pé. Nove, dez, até quinze horas por dia.

Além da sobrecarga no trabalho, tinha de conviver com o cinismo e a falta de cordialidade dos superiores. Minha própria chefe, a chefe dela e o chefe da chefe dela, por exemplo, pareciam mais estar contra os funcionários do que a favor. Existia uma hierarquia entre os tripulantes, com oficiais predominantemente italianos no topo, uma série de trabalhadores de várias partes do mundo no meio e principalmente chineses, indianos e filipinos da cozinha e lavanderia embaixo da pirâmide.

Confinado

Não tinha como escapar da realidade. Não se podia ir caminhar no parque, sair para tomar um sorvete, ir ao cinema ou encontrar os amigos num bar. Mesmo se ficasse doente, não tinha para onde fugir nos próximos cinco meses, quando venceria meu contrato.

Vivendo confinado, percebi que, em poucos dias, as pequenas decepções tomaram grandes proporções – ao contrário da cabine de uns 15 m2 (incluindo banheiro) que eu dividia com um colega italiano de humor inconstante.

Para piorar, a academia disponível para os 1700 tripulantes era um fiasco, com um único aparelho de exercícios para as pernas. Dez minutos de lento acesso à internet custavam um euro. Como se isso não bastasse, eu era obrigado a desperdiçar as poucas horas livres que tinha com programas chatos de treinamento de primeiros socorros e conhecimentos específicos sobre o funcionamento do navio.

Alguns dias, eu trabalhava das 5h às 10h e das 15h às 19h, por exemplo. Considerando que o horário fosse cumprido, imagine o que se podia fazer durante o intervalo das 10h às 15h! Exausto, eu geralmente ia direto para a cama, mas precisava levantar duas horas depois para não perder o almoço.

Naquela viagem, passamos pela Espanha e África antes de voltarmos a Savona, na Itália, sete dias depois. Apesar da correria e do cansaço, tive a oportunidade de andar algumas horas em Túnis (Tunísia), Trípoli (Líbia) e Malta. Pelo menos para dizer que valeu a pena.

Depois que todos os turistas desembarcaram em Savona, seguimos com novos passageiros até Civitavecchia, perto de Roma, onde desembarquei sem receber um centavo para nunca mais voltar. No dia anterior, eu havia decidido que o primeiro cruzeiro também seria o último. Pelo menos como tripulante.

Um mês dormindo na casa de (quase) estranhos no México


Em 2002, me aventurei por um mês em terras mexicanas. Quando fui, não conhecia ninguém por lá. Entretanto, viajei 30 dias do Pacífico ao Atlântico sem passar uma noite sequer em hotel. Quer saber como?

Quando cheguei no aeroporto internacional da capital, esperei que Mikhail Moura, membro do Hospitality Club com quem eu havia trocado alguns emails nas semanas anteriores, me identificasse. Assim que um rapaz alto se aproximou e perguntou “Elton?”, parecia que éramos velhos conhecidos.

Já no aeroporto, conheci também sua irmã, Varenka, e fomos pra casa da família, onde passei quatro belos dias com um quarto só pra mim, comida à vontade, Internet (luxo na época), telefone e outras regalias.

Uma noite, dançando salsa numa discoteca da cidade, comentei com Mikhail e sua namorada, Fernanda, que queria ir para Acapulco. Eu precisava, porém, de algum lugar pra ficar por lá. Fernanda se lembrou na hora de uma amiga que tinha e, no dia seguinte, recebi a boa notícia: eu poderia ficar, por tempo indeterminado, na casa de Israel, primo de uma amiga da namorada do Mikhail.

No caminho a Acapulco, passei um dia em Taxco e, à noite, cheguei a Cuernavaca, onde dormi na casa da mulher que havia viajado ao meu lado no avião. No dia seguinte, finalmente cheguei à praia mexicana mais conhecida no Pacífico, onde Israel já esperava na rodoviária.

A terra do Chaves

Israel era a simpatia em pessoa. Filho de um engenheiro civil, ele já se destacava, aos 24 anos, no ramo da arquitetura. A própria casa onde sua família morava (de três andares) havia sido caprichosamente construída por ele e seu pai, engenheiro civil.

No meu segundo dia na casa, surgiram duas surpresas tanto mim quanto pra toda a família de Israel. Primeiro, um primo seu (Ricardo) acabava de chegar pra passar cinco dias de férias em Acapulco. Segundo, ele tinha trazido quatro amigos junto e pediu se todos poderiam ficar ali. “Uau, o cara é louco”, eu pensei... Mas acabamos todos sendo bem acomodados na casa. Detalhe: continuei com um quarto só pra mim.

Logo me enturmei com os rapazes mais do que com Israel. Íamos à praia, jogávamos bola e pulávamos à noite do segundo andar da casa na piscina. Passei a chamá-los de “los cinco pendejos”. Passados os cinco dias, chamaram:

Proposta irrecusável

“Elton, vamos con nosotros a nuestra ciudad!” San Luís Potosi, onde eles moravam, era longe pra dedéu - uns 800 km de Acapulco. Além disso , já eram cinco num carro destruído. Em outras palavras: adorei e é claro que fui junto.

Em San Luís, fiquei na casa do Carlos. Doi dias depois, eu tinha que ir para Cancún, onde pegaria o avião de volta ao Brasil. Mais uma vez comentei que precisava encontrar um lugar para ficar e... Adivinhe!

Após um dia inteiro num ônibus, lá estava eu em Playa del Carmen, no Caribe, pertinho de Cancún, na casa de Yovani. Quatro ou cinco dias depois, voei de volta pra casa.

Ah, sim! Quem era Yovani? Primo de Carlos, que era amigo de Ricardo, que era primo de Israel, que era aquele primo de uma amiga da namorada de Mikhail, que eu tinha conhecido na Internet.


Ganhando dinheiro desenhando



Foi mais ou menos com quatro anos que comecei a desenhar. Pouco mais tarde, enquanto as outras crianças (e as professoras) faziam os admiráveis homens e mulheres-palitos, meus seres humanos já tinham peito, pescoço, braços e até pés.

As primeiras noções de sombra vieram aos 12 ou 13 anos. Depois, as técnicas de perspectiva e profundidade. Com 16 anos, eu já copiava qualquer ilustração, adorava desenhar o Wolverine e arriscava fazer retratos de pessoas famosas e bem chegadas – ótimas cobaias.

Desenhar era um vício que eu alimentava em casa, na escola e, eventualmente, também nas viagens mundo afora.

Numa dessas viagens, algo mudou. Foi em Paris, quando babei vendo alguns artistas fazerem caricaturas dos turistas em poucos minutos. Como eu ainda recebia mesada na época, imaginei que aqueles desenhistas ganhavam uma boa grana com aquilo e acabei sonhando: “Puxa, imagine se um dia eu puder desenhar tão bem e tão rápido assim! Será que seria capaz de ganhar dinheiro em qualquer lugar?”

Primeiras moedas

Um ano e meio depois, parei numa rodoviária em Corrientes, na Argentina, enquanto ia de Assunção a Córdoba. O próximo ônibus só sairia sete horas depois. Sem mais o que fazer, tirei uns lápis da bolsa e comecei a fazer esboços dos rostos de alguns passageiros que também estavam sentados por perto.

Uma criança curiosa se aproximou e atraiu a atenção de um zelador, o qual parou, riu e chamou um colega. Quando me dei conta, eu estava rodeado de gente e alguém perguntou: “Cuánto cobrás para dibujarme a mí?” Surpreso, respondi: “Un peso!”

Não era muito, mas foi a primeira vez que eu recebi algo por desenhar. Quando embarquei no ônibus, tinha ganhado sete pesos, que equivaliam a 14 reais.

Não parei mais e o valor foi aumentando. Tanto que, menos de dois anos mais tarde, com cada caricatura que eu fazia, conseguia pagar duas noites do hotel em Pushkar, uma pequena cidade na Índia.

Desesperado

Uma vez, em Cancún, faltando ainda quatro dias para voltar ao Brasil, perdi minha carteira com o cartão de crédito e uns dólares que eu havia acabado de sacar no banco. Sem cartão de crédito e sem dinheiro – o que podia fazer?

O jeito foi pegar minha prancheta, folhas e lápis de cor, colocar a mochila nas costas e sair pela praia perguntando quem queria uma caricatura. Depois de hesitarem, quatro italianos toparam entrar na brincadeira, apesar da indisposição para pagar muita coisa pelo trabalho.

No final, felizmente se divertiram com os cabelos, orelhas, bocas e narizes exagerados e me ajudaram a conseguir outras vítimas outros clientes. No fim das contas, aquele dia de trabalho foram suficientes para eu passar os três dias seguintes aproveitando a beleza do Caribe.

Êxtase em alto-mar

Quando pisei na Europa pela primeira vez, tudo era mágico. Quem já foi ao Velho Continente conhece a sensação de que a terra lá vale mais que a terra sul-americana. É uma sensação boba, é claro, mas acho que todo mundo a tem na primeira visita ao outro lado do Atlântico. Este episódio é uma forte lembrança daquela época.

Depois de alguns meses descobrindo, como intercambista, inúmeros detalhes das diferenças materiais e culturais entre o Brasil e a Alemanha, entrei em um trem em Frankfurt com destino a Oslo, capital da Noruega.

Dando uma olhada no mapa europeu, você vai ver que, nessa viagem, eu teria que passar pela Dinamarca e Suécia antes de chegar ao destino final. Além do mais, você vai notar que, em alguns trechos, só existe a água do mar. Então como seria possível completar todo esse roteiro dentro de um trem?

Também me perguntei isso. Na época, eu nem sabia o que era internet, então era bem mais difícil conseguir informações sobre viagens, a vida em outros lugares e até sobre a necessidade de vistos e outras burocracias que, nessas horas, são extremamente relevantes.

Fui meio sem saber o que estava por vir. Aos 16 anos, a vida era uma aventura ainda maior do que é hoje. Viajar de trem já era interessante porque sempre acaba-se conhecendo gente de lugares variados e com histórias curiosas pra contar. E, pra um brasileiro, cruzar em poucas horas uma fronteira e dizer “Agora estou em outro país” era um luxo.

Depois de uma curta estadia na Dinamarca, porém, surgiu algo ainda mais interessante. O trem parou e todos os passageiros tivemos que descer. Ao sair pela porta, o susto: não estávamos em uma estação, e sim dentro de um navio.

Era pra levar a bagagem? Teria controle da polícia? Trocaríamos de trem? Perdidaço, simplesmente segui a multidão.

Era um navio turístico normal, muito mais sofisticado que uma das tantas balsas com que estamos acostumados no Brasil. A maioria das pessoas se acomodou nos assentos do bar, restaurante e em outras salas de espera. Descobri então que, nos cerca de 50 minutos que passaríamos ali dentro, estaríamos deixando a Dinamarca e entrando na Suécia.

Me distanciei do grupo e, curioso, fui subindo, subindo, até chegar a um amontoado de máquinas no convés. Com certeza, aquele não era um lugar feito especialmente pra turistas. Além disso, era noite, fazia frio e o frio não era, digamos, dos mais fracos. Mesmo assim, foi ali que passei um dos momentos de maior êxtase da minha vida.

Hoje, pode parecer bobagem, mas, naquela noite, abrindo os braços e sentindo aquele frio desgraçado, eu olhava de um lado a última cidade dinamarquesa desaparecendo e, no outro, contemplava as luzes da primeira cidade de mais um país desconhecido, achando tudo o máximo. Puxa, com 16 anos, cruzar, sozinho, 4 países em cerca de 24 horas é mesmo pra não se esquecer nunca, você não acha?

Andando de trem sem pagar


Viajar na Europa sem pagar é fácil; difícil é lidar com a própria consciência e com o medo de ser pego.

Cada cidade e meio de transporte tem características específicas que facilitam ou dificultam esse pequeno delito. Quanto menor for a preocupação com a ética, mais fácil fica, pois o risco de ser pego é, matematicamente, bem pequeno. Tudo bem, o risco é pequeno, mas o flagrante é inesquecível.

Aventura arriscada

Um exemplo disso aconteceu uma vez em que percorria um trajeto de 30 km com minha amiga hondurenha e também intercambista Karen. Não só gostávamos de economizar, mas também o fazíamos por necessidade. Por isso entramos no trem sem pagar os cerca de oito euros que, na época, custava a passagem.

Apesar de já estarmos acostumados com a tensão, aquele dia a adrenalina nos mostrou que havíamos abusado da sorte ao limite.

Antes do que esperávamos, o controlador chegou ao nosso vagão. Rapidinho, entramos juntos no banheiro e ficamos quietos. Claro que, logo em seguida, alguém bateu na porta, mas não queríamos abri-la de jeito nenhum.

“Ele vai embora”, torcíamos. Em vão. Minutos depois, o sujeito continuava batendo na porta. Claro que não era a primeira vez que lidava com espertalhões como nós.

Procurando uma saída

Bolamos uma estratégia. Resistiríamos mais alguns minutos, até que o trem parasse na nossa cidade. Assim que as portas da locomotiva se abrissem, o controlador de bilhetes precisaria sair dela por cerca de um minuto. Eu o veria pela janela do banheiro e, rapidamente, correríamos para a porta mais distante, já que estávamos entre duas portas de saída do trem.

Seguimos o plano à risca. Depois de frearmos, vi o vulto do controlador a poucos metros de mim, Karen e eu abrimos o banheiro e corremos para a outra porta, por onde saltamos com nossas mochilas em direção à liberdade.

Purgatório

Só não contávamos com um outro controlador que estava, já na plataforma, nos esperando. Me senti como se estivesse no purgatório. “É agora que vamos ao céu ou ao inferno”, pensei.
Primeiro, veio a bronca. Karen e eu fizemos de conta que não entendíamos nada – coisa manjadíssima - , mas não convencemos o sujeito. Ele insistia que pagássamos uma multa. “Ou vocês pagam ou chamo a polícia agora”, nos ameaçou.

Pronto. Era o que faltava para Karen cair no choro. Se lambuzando em lágrimas, a baixinha hondurenha implorava, numa mistura de espanhol e alemão, para que o homem perdoasse a estupidez de dois jovens intercambistas que nunca mais fariam aquilo.
ão era encenação.

Nem o coração gelado do alemão pode resistir aos prantos da menina. Até eu fiquei preocupado com minha melhor amiga da época vendo que o desespero dela n

Antes que ela desmaiasse ali na plataforma, o controlador nos liberou, apitou para o motorista, entrou no trem e partiu.

Pelo que me lembro, a Karen nunca mais andou de trem, metrô ou ônibus sem pagar. A Karen…

Os mortos de Varanasi

Em dois meses andando pela Índia, minha irmã e eu já tínhamos visto a caótica Mumbai, a capital Déli, o deserto do Rajastão, o imponente Monte Evereste, o maravilhoso Taj Mahal e muito mais. Aos poucos, já começávamos a achar que aquele país exótico não tinha mais muito a oferecer aos nossos olhos famintos.

Algo que ainda não havíamos visto, porém, nos aguardava naquela manhã, quando acordamos bem cedo e, ansiosos, deixamos o hotel no centro de Varanasi e fomos caminhando em direção ao Rio Ganges.

Não era a água que buscávamos, e sim a fumaça que parecia ganhar mais consistência conforme os raios do sol se tornavam mais fortes.

Enquanto seguíamos beirando o Ganges, desviávamos dos estrumes de vacas e búfalos e víamos como os indianos se banhavam, escovavam os dentes e lavavam suas roupas na mesma água escura do rio.

E isso não era tudo. A fumaça ia ficando mais forte e, aos poucos, podíamos sentir também seu cheiro. Carne. Sim, tinha cheiro de carne. Não de gado ou de porco, mas de gente.

Não era permitido fotografar, mas qualquer um podia ver o que eles faziam ali. E eu, curioso, me aproximei o máximo que pude e passei a assistir a tudo que acontecia.

Cadáver

Cantarolando, um grupo de pessoas se aproximou carregando um cadáver e o colocou sobre um punhado de madeiras. Era um homem com o corpo enrolado em um pano laranja e amarrado em uma maca de bambu. O rosto e os pés estavam descobertos.

Alguém acendeu a fogueira. Eu estava a uns 3 ou 4 metros de distância, com os olhos atentos, provavelmente refletindo as luzes do fogo. Em segundos, o cadáver ficou sem cabelos e sem o tecido que o envolvia. Os olhos perderam a cor branca e a forma redonda, a pele começou a derreter e, em meio às chamas e aos estalos típicos de uma fogueira, eu tinha relances dos músculos, órgãos e ossos sendo fritos e assados.

Pouco tempo depois, só havia restado cinzas e carvão misturado com ossos. Olhando ao meu redor, tive a impressão de ser o único que se espantava com aquelas cenas todas. Afinal de contas, aquela gente estava acostumada ao ritual que, todas as manhãs, se repete dezenas ou centenas de vezes como parte da crença hindu de várias vidas.

O que aconteceu em seguida foi muito rápido: as cinzas foram jogadas no rio, novos pedaços de madeira formaram uma outra fogueira e, em poucos minutos, lá estava mais um cadáver prestes a ser cremado ao ar livre.

Pra indianos pobres e miseráveis, a madeira pode custar uma fortuna. Por isso, muitos deles enrolam os parentes mortos em pedras e simplesmente os jogam no Ganges. É por isso que ver corpos ou partes deles boiando no rio ou encalhados nas margens é algo comum em Varanasi.

A melhor história de caronas


Esta história começou numa manhã quente de junho de 2000, quando minha irmã e eu fomos até a saída de Milão, na Itália, com mochilas nas costas e bandeira do Brasil na mão, desafiando nosso destino. Depois de dois dias procurando em vão um trabalho em restaurantes e hotéis da cidade italiana, tínhamos decidido, naquele dia, tentar a sorte na Suíça.

Com 20 e 19 anos, respectivamente, não tínhamos muitos planos. Na verdade, nem sabíamos direito como a Suíça era e nunca tínhamos ouvido antes o nome da região pra onde decidimos ir aquele dia – do qual, aliás, nem nos lembramos mais hoje.

Tínhamos em mãos passagens pra Índia e alguns euros pra sobrevivermos lá, mas ainda faltavam três meses pra viagem. Precísavamos dar um jeito de encontrar um lugar pra morar e comer enquanto o dia do voo não chegava.

Nossa intenção era conhecer algum fazendeiro que nos oferecesse, por três meses, cama, comida e alguns francos suíços em troca do duro trabalho de alguma plantação de maçãs, uvas ou o que fosse. Detalhe: nossos vistos eram de turismo, o que dobrava a chance de não dar certo.

Bendito furgão azul

Depois de duas ou três caronas por curtos trajetos, nos encontrávamos já à tarde no norte da Itália, bem próximos da fronteira com a Suíça. Mental e verbalmente, deixávamos o otimismo combater o cansaço, a fome e a dúvida de que aquela loucura daria certo.

De repente, um furgão parou próximo à minha irmã e uma loira de cabelos curtos começou a falar com ela pela janela do banco de passageiros dianteiro. Dentro do automóvel estavam a Ketty, professora de dança, o marido Serge, artista plástico, e os filhos Aaaron (3), Shanna (6) e Mahran (11), além da cadela Rotweiller Lia.

Nos juntamos à família e seguimos viagem. Após algumas horas, o sol já estava indo embora e Ketty nos disse: “Já está ficando tarde. Vocês podem vir conosco e dormir na nossa casa. Amanhã ajudo vocês a procurar um trabalho na redondeza”. Claro que topamos.

Paraíso nos Alpes

Quando chegamos a Le Levron já era noite. Só na manhã seguinte, uma surpresa: olhamos pela sacada ao lado da cozinha e demos conta de que estávamos num pequeno vilarejo nos Alpes. Uma cena de filme.

Nesse dia, Serge partiu com as crianças em direção à França, onde passaria duas semanas na casa dos pais dele. Enquanto as malas eram feitas, Ketty telefonava pra conhecidos da região em busca de um trabalho para nós.

No sábado, ela propôs: “Tenho um curso de uma semana na Bélgica e preciso deixar a cadela com alguém. Se quiserem, vocês podem ficar aqui tomando conta dela e da casa. Talvez alguma das pessoas pra quem liguei volte a telefonar e vocês consigam algum trabalho.”

Deu certo. Quando Ketty voltou de viagem, já estávamos, de fato, trabalhando como garçons numa estação de esqui vizinha. Depois, conseguimos uns “bicos” como zeladores com umas vizinhas queridíssimas que falavam português.

Laços

No final das contas, acabamos passando três meses naquele pequeno paraíso. Minha irmã viveu o tempo todo com Ketty e ganhou uma grana cuidando das crianças dela. Eu passei a maior parte do tempo na casa do Nicolas, o vizinho que já tinha vivido no Brasil, e dei uma ajeitada no jardim da Ketty.

Conhecemos o vilarejo inteiro, fizemos algumas amizades e nos apegamos à família de tal forma que, assim que voltamos da Índia, retornamos ao vilarejo pra passarmos o Natal e Ano Novo na companhia da nossa amiga Ketty, do marido e dos nossos “irmãozinhos”.