Lothar Schulz: fome de liberdade
Quando nos conhecemos no camping em que eu trabalhava em Roma, o alemão tinha 56 anos e estava apenas começando uma viagem de bicicleta pela Europa. Recentemente, nos reencontramos em Berlim, onde o ex-engenheiro finalmente resolveu sossegar um pouco em outubro de 2009.
O tempo entre nosso primeiro e segundo encontros foi de 4,5 anos. Quando encerrou a viagem oficialmente na capital alemã, o computador da bicicleta marcava 53,7 mil quilômetros – percorridos durante quatro anos em 19 países.
O mais interessante, porém, não é a quilometragem em si, mas o combustível que move os músculos desse loiro alto de 60 anos com disposição de homem de 30.
Sonho de liberdade
O nascimento do Herr Schulz foi registrado em 1950 no hospital da pequena Altruppin, ao norte de Berlim. Desde o ano anterior, quando a Alemanha havia sido dividida, a cidade fazia parte da República Democrática da Alemanha (RDA), a “Alemanha Oriental”.
Na juventude, Lothar começou a se incomodar com a opressão do regine comunista e passou a sonhar com variados conceitos de liberdade. Além de não poderem ir a várias partes do mundo, ele e os compatriotas não tinham autonomia para escolher que carreira seguir, muito menos liberdade para expressar o que pensavam.
Em 1978, participou de uma demonstração em Berlim e foi preso. Três anos depois, conquistou a liberdade que tanto queria sendo expulso do país e imigrando na “Alemanha Ocidental”.
No Oeste, Lothar se valeu da formação como engenheiro para se destacar profissionalmente e realizar viagens constantes à Inglaterra e França a trabalho. Mas essas jornadas não bastaram para satisfazer a fome que ele tinha de conhecer outras culturas. Por isso, depois de juntar dinheiro por 1,5 década, Em 2005, iniciou a tal viagem de bicicleta.
Na bagagem, Lothar levou consigo poucas roupas, uma câmera digital, dicionários e uma barraca, dentro da qual passou a maioria das noites nesses quatro anos de aventuras e descobertas. Além de desafiar a natureza sob sol e chuva, ele foi atropelado duas vezes na Espanha. Lembrando a experiência, ele diz: “É mais forte que heroína. Atravessar diferentes países e dormir em condições simples em contato intenso com a natureza é algo que me fascina muito mais que drogas para outras pessoas.”
Hoje
Atualmente, o engenheiro se mora feliz em um apartamento de 27 m² com vista para o campo longe do centro em Berlim. Além de se exercitar na academia do condomínio em que mora, nos dias de sol, costuma deixar a casa de bicicleta. “Nunca vou me tornar um aposentado; só vou me acalmar no cemitério”, diz.
Lothar nunca fumou, evita cafeína e não exagera na cerveja. Mas não é só isso que o torna um exemplo de superação. Ele é interessado em política, aprendeu italiano e espanhol na marra quase aos 60 anos e está planejando a próxima empreitada a pé de Berlim até Moscou. “Dessa vez documentando tudo para fazer um filme”, revela. Quer mais?
Mercados de pulgas
Na Alemanha, onde são chamados de Flohmärkte, Trödelmärkte ou Antikmärke, eles reúnem diferentes povos vendendo ou à procura de objetos muitas vezes excêntricos.
Em 13 de março, foi realisada mais uma edição do maior mercado de pulgas noturno de Berlim (Nacht-Flohmarkt in den Rathenauhallen in Oberschöneweide). Cerca de 170 comerciantes expuseram as mercadorias em um espaço coberto de mais de 8000 m².
Veja o que descobri sobre a organização do evento e que histórias estão por trás dos objetos aqui.
Cidadania italiana
Como você já deve saber, vários desses descendentes têm se esforçado para conseguir a dupla cidadania e conquistar, com isso, o direito de ir à Europa quando bem entenderem e permanecer quanto tempo quiserem.
Como é fácil de compreender, a procura é desproporcional ao contingente dos consulados e ao interesse dos italianos em concederem a dupla cidadania. Assim, milhares de pedidos tanto de brasileiros quanto de argentinos de reconhecimento da cidadania italiana estão emperrados há anos nos consulados desses países sul-americanos. Por isso, os descendentes mais dispostos vão pessoalmente até a terra natal dos antepassados em vez de esperar sentados.
Foi o que fiz em 2005. Cheguei em Roma como brasileiro e, sete meses depois, saí de lá como italiano. Dois anos mais tarde, foi a vez da minha mãe repetir a história, já que o reconhecimento da minha cidadania não implicava no reconhecimento da dela. Apesar do tempo passado, acredito que pouca coisa tenha mudado nos procedimentos básicos. Espero que estas dicas possam ajudar:
Ainda no Brasil
Só pense em ir para a Itália quando tiver:
* O site do “seu” consulado deve ter uma lista com os tradutores juramentados do seu estado.
** Uma taxa é cobrada e também deve haver uma fila de espera para isso, mas nada melhor do que ir pessoalmente cedinho ao consulado para tentar conseguir os tais carimbos.
Na Itália
Se não tiver um visto de estudante ou de trabalho, você pode entrar na União Europeia como turista. Turistas recebem automaticamente um visto de três meses e não podem trabalhar. Mostrar todos os documentos e contar o porquê da sua viagem à Itália não irá alterar o tipo ou o prazo do seu visto.
A cidade em que você irá residir deve ser a mesma em que você “dará entrada no processo” de reconhecimento da cidadania. Porém, não precisa ser a cidade em que seu parente italiano nasceu.
Assim que chegar à cidade que tiver escolhido, a primeira coisa a fazer é se registrar na polícia logo na primeira semana. Não espere cordialidade, esteja bem atento aos horários de abertura de tudo que é público e acostume-se desde essa etapa a seguir as instruções burocráticas nos mínimos detalhes. Uma manhã inteira de viagem até a polícia e na fila de espera com estrangeiros das mais variadas partes do mundo podem ser em vão se um formulário ou uma foto estiverem faltando.
Com o tal registro em mãos, o próximo passo é procurar um lugar onde você possa morar oficialmente. Isso significa que você deverá se inscrever como residente naquele endereço. A inscrição é feita na anagrafe della popolazione residente (APR), uma extensão da prefeitura encarregada dos registros de nascimento, matrimônio, divórcio, adoção, óbito e naturalização. Cidades grandes têm várias anagrafi. Procure a do seu bairro.
Aqui, prepare-se para enfrentar dois impecilhos:
- alguns funcionários públicos podem hesitar em lhe dar esse registro porque “você é um turista”;
- a própria pessoa que lhe aluga o imóvel ou cômodo pode se negar a registrar você na casa.
Se tudo correr bem, você se registra e espera até que algum oficial lhe faça uma visita surpresa naquele endereço. Não tem nada de mais. É abrir a porta, deixa-lo(s) entrar, ver que você mora mesmo ali, assinar um documento ali e pronto. Alguns dias depois, constará na anagrafe que você é, oficialmente, residente na Itália.
Algumas pessoas procuram entidades da Igreja ou organizações não governamentais e conseguem esse registro de residência muito mais fácil e rapidamente. Se você optar por essa busca, é mais provável que tenha êxito numa cidade grande.
Com o registro na polícia, a comprovação da residência e todos seus documentos originais, traduzidos e autenticados, você deve se dirigir ao Comune (prefeitura) para, finalmente, solicitar sua naturalização. Por via das dúvidas, é bom levar também cópias dos documentos conseguidos nos dias anteriores e algumas fotos extras. Em casa, não custa guardar cópias de todos os papeis que você levou do Brasil.
Na prefeitura, algum funcionário analisa todos os documentos e lhe diz se está faltando algo. Torça para que não esteja. Depois disso, você recebe um comprovante de que “deu entrada no processo” e “aguarda até que alguém lhe contate” quando tudo estiver pronto. Como “quem espera, nem sempre alcança”, sugiro que você anote os telefones e nomes de quem lhe atendeu e, a partir de um ou dois meses depois desse dia, comece a ligar a cada semana ou quinzena cobrando um parecer.
Essa é a parte mais demorada do processo. Segundo os funcionários da prefeitura, esta cobra do consulado que autenticou sua papelada no Brasil uma confirmação da veracidade da sua identidade e de todos os documentos. Pode levar dois meses, três, quatro... ou um ano. Por isso pode ajudar ficar cobrando. Depois que receber a confirmação do consulado, a prefeitura deixa sua naturalização pronta em minutos.
Com a naturalização em mãos, é hora de correr atrás dos seus documentos de identidade italianos. O primeiro deles é a certidão de nascimento, que lhe é feita instantaneamente na sua velha conhecida anagrafe. É apenas uma nova certidão em italiano, com os mesmos dados da sua brasileira.
Em seguida, requeira ali mesmo a carteira de identidade. É necessário que duas testemunhas estejam presentes para confirmar que você é você. Por isso, leve amigos ou peça para alguém ali mesmo para lhe fazer esse favor.
Por último, você pode ir à polícia para solicitar seu passaporte italiano, o qual deve ficar pronto em até três semanas. Por favor, não me culpe se demorar mais.
Para a identidade e o passaporte, também existem várias instruções – fotos assim e assado e cópias disso e daquilo - , mas nada que não se possa resolver em meio dia de correria.
Se quiser permanecer na Itália, você ainda precisará de um código fiscal, uma conta bancária e por aí vai. Mas isso você já pode descobrir lá, não é mesmo?
Com organização, otimismo e um bocado de sorte, 4-6 meses na Itália podem ser o suficiente para se tornar um cidadão da União Europeia e ficar livre para escolher onde viver na Itália ou em qualquer outro país europeu. Buona fortuna!
Recepcionista num navio cruzeiro no Mediterrâneo
Eu não tinha ideia do que me esperava quando cheguei com uma mochila enorme nas costas e o passaporte italiano novinho no bolso em Palermo, na Sicília, em dezembro de 2005.
Eu era o novo contratado da Costa Crociere, empresa com uma das maiores frotas de navios cruzeiros do mundo. Quando vi o gigante Costa Fortuna ancorado, fiquei espantado com a dimensão da “nave” e não pude evitar o frio na barriga. Me mudado várias vezes eu já tinha, mas nunca para um navio.
Quatorze andares, centenas de cabines, vários restaurantes, piscinas, lojas e uma série de outras atrações. Havia até teatros, cassino e spa a bordo. Nos primeros cinco dias, a embarcação permaneceu ancorada na capital siciliana, enquanto uma revisão geral era feita em praticamente todos os compartimentos. Nesse período, aproveitei para conhecer o que e quem podia e participei de um treinamento intensivo com os demais dez front desk operators, meus colegas de trabalho da recepção.
Dias antes do Natal, o Costa Fortuna partiu com cerca de 1700 tripulantes e 3300 passageiros. Assim que nos afastamos da terra firme, foi feita uma simulação de incêndio, o que serviu para “quebrar o gelo” entre tripulantes e turistas. Horas mais tarde, éramos uma verdadeira cidade em alto-mar – ainda que um mero pontinho visto lá de cima, no céu.
Os contras
Não demorou muito para que o encantamento fosse substituído pelo estresse. A recepção ficava aberta 24 horas por dia. Em frente a ela, filas de passageiros de todas as idades e com os mais variados anseios eram formadas a maior parte do tempo. As pessoas faziam perguntas sobre direções ou o cardápio, iam registrar cartões de crédito para o pagamento, reclamavam sobre defeitos nos banheiros de suas cabines e por aí ia.
Como front desk operator, eu tentava resolver o problema de todos falando seis línguas e mantendo sempre a calma. Sempre de terno e gravata e em pé. Nove, dez, até quinze horas por dia.
Além da sobrecarga no trabalho, tinha de conviver com o cinismo e a falta de cordialidade dos superiores. Minha própria chefe, a chefe dela e o chefe da chefe dela, por exemplo, pareciam mais estar contra os funcionários do que a favor. Existia uma hierarquia entre os tripulantes, com oficiais predominantemente italianos no topo, uma série de trabalhadores de várias partes do mundo no meio e principalmente chineses, indianos e filipinos da cozinha e lavanderia embaixo da pirâmide.
Confinado
Não tinha como escapar da realidade. Não se podia ir caminhar no parque, sair para tomar um sorvete, ir ao cinema ou encontrar os amigos num bar. Mesmo se ficasse doente, não tinha para onde fugir nos próximos cinco meses, quando venceria meu contrato.
Vivendo confinado, percebi que, em poucos dias, as pequenas decepções tomaram grandes proporções – ao contrário da cabine de uns 15 m2 (incluindo banheiro) que eu dividia com um colega italiano de humor inconstante.
Para piorar, a academia disponível para os 1700 tripulantes era um fiasco, com um único aparelho de exercícios para as pernas. Dez minutos de lento acesso à internet custavam um euro. Como se isso não bastasse, eu era obrigado a desperdiçar as poucas horas livres que tinha com programas chatos de treinamento de primeiros socorros e conhecimentos específicos sobre o funcionamento do navio.
Alguns dias, eu trabalhava das 5h às 10h e das 15h às 19h, por exemplo. Considerando que o horário fosse cumprido, imagine o que se podia fazer durante o intervalo das 10h às 15h! Exausto, eu geralmente ia direto para a cama, mas precisava levantar duas horas depois para não perder o almoço.
Naquela viagem, passamos pela Espanha e África antes de voltarmos a Savona, na Itália, sete dias depois. Apesar da correria e do cansaço, tive a oportunidade de andar algumas horas em Túnis (Tunísia), Trípoli (Líbia) e Malta. Pelo menos para dizer que valeu a pena.
Depois que todos os turistas desembarcaram em Savona, seguimos com novos passageiros até Civitavecchia, perto de Roma, onde desembarquei sem receber um centavo para nunca mais voltar. No dia anterior, eu havia decidido que o primeiro cruzeiro também seria o último. Pelo menos como tripulante.
O que é fundamental pra aprender um idioma
Nem todo mundo que começa a aprender outra língua, entretanto, faz isso por causa de uma viagem ao exterior. Há também quem busque esse conhecimento por causa do trabalho, pra entender letras de músicas ou textos científicos, por imposição dos pais, por mera curiosidade ou até mesmo pra poder paquerar alguém de outro canto do mundo.
As razões são, portanto, variadas, da mesma forma que as opções que temos hoje em dia pra conseguirmos esse conhecimento. Cursos no colégio e em escolas especializadas, aulas particulares, materiais audio-visuais pra auto-didatas, treinos com músicas e filmes, leitura e escrita com dicionários em mãos... Você pode escolher uma ou até todas essas opções.
O segredo é...
Qual é o segredo, então, pra tornar seu aprendizado realmente eficaz? Motivação. É claro que o método e a capacitação de quem lhe ensina também são relevantes, mas é mais importante pensarmos como o ditado que diz: “Não existem bons ventos para quem não sabe aonde quer chegar.”
Descubra o que você quer almejar estudando uma língua estrangeira. Pense no que pode ganhar com isso: nas vantagens em relação a outros concorrentes na sua área de estudos e trabalho, na facilidade pra se locomover virtualmente e fisicamente pelo mundo, no bem que pensar em outro idioma pode fazer ao seu cérebro e nas portas que se abrirão no futuro imprevisto.
Por mais que tenha tempo e ótimos professores e materiais didáticos, sem acreditar numa boa razão e visualizar os benefícios que você poderá atingir se tornando um bilíngue, trilíngue ou poliglota, provavelmente você estará perdendo tempo e dinheiro.
Mas que fique bem claro: só a motivação não ensina nada a ninguém. Por isso, quando estiver ciente do que tem a ganhar dominando outro idioma, junte a motivação à concentração, detalhismo e persistência… e mãos à obra!
Como é viver numa sociedade individualista
Por que, em alguns lugares, religião é tão importante, políticos são tão corruptos e pessoas são tão simpáticos, enquanto outros países já rumam há muito tempo ao estabelecimento de uma sociedade individualista e de sexo neutro?
Lendo The Ethics of Authenticity (A Ética da Autenticidade), do filósofo canadense Charles Taylor, pude finalmente perceber quão bobo era ficar observando as pessoas em vez de prestar atenção nos ideais morais que dão suporte às suas sociedades. No livro, Taylor me ajudou a entender que diabos está acontecendo nos EUA, Canadá e em alguns países europeus. Consequentemente, também ficou claro por que algumas nações mais ao sul tendem a ser tão resistentes às influências do norte.
Deve haver muito mais gente confusa por aí. A maioria sem saber no quê acreditar, o que almejar, como se satisfazer e, o que é ainda pior, muitas pessoas sem saber quem são. Se você é uma delas, deixe-me tentar ajudar dando uma breve explicação pra tudo isso e me perdoe se ela parecer simplista demais.
Liberdade e igualdade
Você se lembra do que os revolucionários franceses exigiam? “Liberté, égalité et fraternité”. Ou seja, democracia. O Oeste (prefiro dizer “Noroeste”) matou os três coelhos com uma só cajadada: Justiça.
Com igualdade e liberdade garantidas por lei, os cidadãos puderam confiar no Estado e as hierarquias sociais começaram a desmoronar. Quando as pessoas se deram conta de que não precisavam mais seguir os dez mandamentos de Deus e implorar pela misericórdia dele, a religião e seus valores se tornaram obsoletos.
Agora pense no que aconteceu quando as pessoas deixaram de acreditar em Deus e passaram a procurar realização ou satisfação pessoal do jeito que bem entendiam.
Consequências
De acordo com Taylor, isso levou ao individualismo e ao desencantamento do mundo, tornando o solo fértil para o crescimento de um leve relativismo e do instrumentalismo – alguns termos peculiares que estão interrelacionados e são fáceis de entender.
Em outras palavras, os indivíduos perderam a fé em algo “maior” e se voltaram a si próprios (individualismo e desencantamento do mundo); ninguém mais pôde dizer aos demais o que é bom e ruim (relativismo); e tanto a natureza quanto os próprios humanos passaram a ser considerados meros instrumentos para a realização pessoal dos indivíduos (instrumentalismo, o motor principal do capitalismo).
Por um lado, uma sociedade assim permite que você seja como você bem entender, sem que alguém lhe diga o que fazer ou como agir. Por outro lado, ninguém dá a mínima pra você. Já que os indivíduos são levados a buscar auto-realização de forma autônoma, também não há mais a necessidade nem o dever de ajudar os vizinhos. É esse o lado egoísta do individualismo que faz os alemães dizerem tanto “Das ist nicht mein Problem” (Isto não é problema meu).
Dilema
Como Taylor aponta, as pessoas têm agora mais um “problema”: encontrar sua própria identidade. Se não somos mais “filhos de Deus” e se a maioria das posições hierárquicas da sociedade desapareceram, quem somos nós? Alguém pode se perguntar estes dias: “Beleza, agora que somos todos livres e temos os mesmos direitos de sermos quem quisermos, como posso me diferenciar dos outros?”
Eis uma contradição curiosa: queremos ser iguais, mas ao mesmo tempo especiais. Olhe ao seu redor: o mundo está cheio de melhor disto, os top 10 daquilo, os mais disto e a lista do ranking daquilo. Ainda desejamos ser diferentes. E queremos ser autênticos.
Agora pense nisto: Quem vai validar a sua autenticidade? Quem vai confirmar a sua identidade? Talvez falemos disso uma outra hora.
Defeitos de brasileiro
Existem também os defeitos, como qualquer povo do mundo tem. É justamente pra esses pontos negativos da nossa imagem lá fora que quero chamar a sua atenção.
Esperteza
Muito brasileiro se acha esperto e tem orgulho disso. No entanto, as qualidades das pessoas não são valorizadas na mesma medida em todo o planeta. Tem regiões, por exemplo, onde ser cool é mais importante do que ser sábio; ou onde ficar quieto é mais apreciado do que sair falando o que se pensa. E há também regiões onde a inocente honestidade é mais valorizada do que a malícia.
No Brasil, a esperteza faz parte do nosso dia-a-dia. Muitos de nós aprendemos a ser malandros desde cedo e, mesmo quando isso não acontece, precisamos saber nos defender dos espertalhões que estão à solta.
Quando começam a conviver com um povo menos malicioso, os compatriotas que continuam agindo com malandragem acabam manchando a imagem de todos nós. Usar transporte público sem pagar, fazer negócios desonestos e contar mentiras pra sair por cima são algumas das principais manias do brasileiro espertalhão.
Pressa
No Brasil, falamos com qualquer um que senta ao nosso lado, viramos amigo dos professores e clientes, fazemos piadas dos colegas da sala ou do trabalho e até beijamos alguém 5 minutos depois de ter visto pela primeira vez. Em muitos outros países, essas coisas acontecem bem mais devagar... ou jamais.
Quando chegar em um lugar estranho, tenha cautela e seja observador. Aos poucos, você vai perceber se é melhor dar a mão ou um beijo no rosto ao cumprimentar alguém, se você pode se servir antes dos outros durante as refeições ou até se pode tratar outra pessoa com o pronome “você” em vez de “o senhor” ou “a senhora”.
Principalmente nas amizades ou paqueras, tome muito cuidado pra não parecer desesperado.
Jeitinho
Outra má característica de muitos brasileiros é a mania de ser teimoso, burlar regras e forçar a barra pra conseguir o que quer.
Acostumados com a vida de onde nasceram, muitos chegam no exterior achando que propinas, atrasos, sonegações e comercialização de privilégios também funcionam lá fora. O resultado é desastroso: não aprendem a seguir as regras, principalmente as que dizem “não” alguma coisa.
Diversos serviços só funcionam em países do Hemisfério Norte porque os cidadãos se respeitam e prezam pelo patrimônio público. Quando tiver a oportunidade de estar em um lugar desses, aproveite pra seguir os bons exemplos e deixe a tentação de dar um jeito pra tudo de lado.
Acredite: os caminhos da esperteza, pressa e do famoso jeitinho brasileiro podem ser mais rápidos, mas os da sensatez e paciência são certamente mais seguros.
Um mês dormindo na casa de (quase) estranhos no México
Sem ter onde dormir em Viena
Tentando entrar na Hungria sem visto
Eu sabia que cidadãos brasileiros precisavam de visto para atravessar a fronteira, mas decidimos arriscar sem ele, mesmo. Assim, compramos uma passagem e, com mochilas nas costas, entramos em uma cabine com seis lugares e ali ficamos quietinhos.
Em pouco tempo, o trem parou e alguns policiais entraram. Pelo menos é o que deduzimos, pois não tínhamos coragem de ir até a porta e colocar a cabeça para fora.
A parada foi curta e, assim que a locomotiva voltou a funcionar, entramos um estado misto de alívio e euforia. Pena que durou pouco.
Controle
Os oficiais da imigração húngaros entraram na nossa cabine e, gentilmente, pediram para ver nossos passaportes. À Anne, bastou mostrar a carteira de identidade alemã e podia prosseguir a viagem tranquila.
Eu, no entanto, queria mostrar qualquer coisa – menos o passaporte brasileiro, o qual, na época, era verde. Comecei entregando uma carteira internacional de estudante feita meses antes em Portugal.
Não funcionou. A cara de bobo, o espírito eventureiro de 18 anos e a explicação de que seriam “só duas noites em Budapeste” também foram em vão.
Acabamos descendo na parada seguinte, onde ficamos esperando sentados no chão, escoltados por um soldado que não falava nada além de húngaro, até o próximo trem em direção a Viena passar.
Quando voltamos à capital da Áustria, o camping em que havíamos ficado nas noites anteriores já estava fechado. É assim que começa a próxima história...
Ganhando dinheiro desenhando
Foi mais ou menos com quatro anos que comecei a desenhar. Pouco mais tarde, enquanto as outras crianças (e as professoras) faziam os admiráveis homens e mulheres-palitos, meus seres humanos já tinham peito, pescoço, braços e até pés.
Muda o país, muda a comida
Pra quem sentir falta dos doces da terra-natal, eis um alívio: a cada ano que passa, leites condensados ocupam as prateleiras de mais supermercados. Pelo menos o brigadeiro está garantido! Agora cuidado: não comece a fazer um pavê sem ter certeza de que irá encontrar Guaraná no lugar em que você estiver.
Algumas coisas ainda estarão disponíveis em qualquer lugar, mas não necessariamente com o gostinho com que você está acostumado. Quando experimentar o chocolate, a pizza e a carne de outros países, você vai saber do que estou falando.
Mas calma porque também há coisas boas. O leite na Europa é uma delas. Barato e espesso, acaba sendo também responsável por uma enorme variedade de iogurtes e queijos pra todos os gostos. Todos mesmo.
Ciganos batedores de carteira na Itália
Ao que tudo indica, os ciganos provêm da Índia. No final do século 14, os primeiros grupos chegaram à Europa e continuaram andando para lá e para cá em todo o continente. Seu nomadismo e diversos costumes sempre causaram incômodo às comunidades locais, levando os nazistas a incluí-los na lista negra. Provavelmente, meio milhão deles foram mortos nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.
A perseguição não parou por aí, como demonstram recentes ataques a assentamentos de ciganos em determinadas regiões da Itália, França e Irlanda do Norte. Mas será que isso tem ocorrido só por causa dos costumes dessas famílias?
Itália
Proavelmente, entre 60 mil e 90 mil deles vivem atualmente na Itália - pelo menos 3 mil nômades na capital Roma.
Em 2005, assim que cheguei para viver na cidade, fui logo avisado: “Muito cuidado com os ciganos!” Segundo os locais, seria fácil reconhecê-los, principalmente as mulheres com saias longas, chinelos ou sandálias e cabelos compridos.
Uma das suas características culturais é andar em bandos. Muitas vezes, identificá-los é uma questão de auto-segurança, pois estar próximo desses grupos pode significar ficar sem sua carteira ou bolsa – principalmente dentro e ao redor dos ônibus e metrôs.
Tudo bem que 97% das crianças ciganas não frequentam a escola, que a maioria dos adultos é analfabeta, que a expectativa de vida deles é por volta dos 50 anos e que as condições precárias dos assentamentos e barracas se somem a outros inúmeros fatores que os empurram para as margens da sociedade. Mas o que você vai pensar quando for a Roma e for roubado por um deles?
Indignação
Ao longo dos meses em que vivi na capital italiana, me acostumei a escutar relatos de turistas inconformados por terem perdido dinheiro, passaporte e outras coisas durante os passeios na cidade. A indignação só aumentava porque tanto cidadãos quanto Estado estão cansados de saber do problema, mas até hoje não encontraram nenhuma solução. Houve, porém, uma tarde em que minha revolta chegou ao ápice.
Assim que subi no ônibus em direção ao trabalho, vi que duas mulheres e uma moça, todas ciganas, estavam em pé, com aquele olhar de caçadoras de níqueis. Fiquei também em pé, próximo da porta dos fundos, no meio do trio e de olho nas três.
Eu achava que, a qualquer momento, pegaria uma delas no flagra tentando abrir a bolsa ou mochila de alguém distraído, mas o que aconteceu foi ainda pior.
A mais velha do grupo tinha um bebê no colo. Apoiada no braço esquerdo da mulher e coberta com um pano, a criança foi ficando cada vez mais próxima de mim conforme a mulher dava pequenos passos na minha direção.
De repente, senti minha carteira se mexer, roçando minha coxa. Instintivamente, coloquei a mão no bolso e me surpreendi com outra mão tentando entrar ali. Na verdade, a cigana estava com o bebê amarrado! O braço dela, coberto pelo pano, estava livre, leve e solto para ela meter a mão na carteira ou dentro da bolsa de quem ela quisesse.
Indignado, fiz um escândalo como um típico italiano, fazendo com que o motorista parasse o ônibus e as três descessem. Depois de chegar à rua, a figuraça ainda cuspiu em minha direção. Não acertou! :-P
Algumas semanas depois, vivi uma situação semelhante em um ônibus lotado, esprimido entre desconhecidos e flagrando um homem também tentando enfiar a mão no bolso dianteiro da minha calça jeans. Novo escândalo, nova parada de ônibus, novo ladrão descendo inconformado.
Portanto, quando for a Roma, Barcelona, Paris e outras cidades europeias onde ouvir “Cuidado com os ciganos!”, fique realmente muito atento.
Escravidão na Itália
Dicas para suportar o frio do Hemisfério Norte
Provavelmente, depois de sobreviver a um inverno inteiro em lugares como Escandinávia, Europa Central, Rússia ou Canadá, você irá entender por que as pessoas desses lugares idolatram o sol e estão sempre falando sobre o tempo.
Se você planeja encarar o inverno de alguma dessas regiões, tenha sempre três coisas em mente:
1) Mantenha-se agasalhado
Nós humanos somos seres homeotérmicos e funcionamos à temperatura de 37°C. Quando a temperatura externa é muito mais baixa que isso, uma região do nosso cérebro chamada hipotálamo ordena a constrição dos vasos sanguíneos e outros mecanismos para nos manter aquecidos. Com isso, a pele fica pálida, fria e ressecada.
O hipotálamo encara a proteção do coração e outros órgãos vitais como prioridade, “desprezando” extremidades como dedos, orelhas e nariz. Dependendo do tempo de exposição ao frio, os vasos sanguíneos dessas “batem em retirada”, deixando-as sem combustível e sem calor. É por isso que pequenos movimentos como segurar uma caneta ou amarrar o cadarço podem se tornar missões impossíveis num dia de muito frio.
Apesar de o princípio ser o mesmo entre os humanos, algumas pessoas suportam temperaturas baixas fazendo menos esforço. Principalmente se elas tiverem sido expostas ao frio repetidamente.
Se você vem de um país tropical como o Brasil, esse não deve ser o seu caso. Portanto, não adianta querer dar uma de bonzão e mostrar que “não está sentindo frio”. Fazendo isso, você ficará mais vulnerável e provavelmente acabará sendo vítima fácil de resfriados e gripes.
2) Alimente-se bem
Durante a digestão, nosso corpo produz calor e libera substâncias que serão distribuídas entre as células, aumentando a capacidade dessas de produzirem novamente calor. Pense nos músculos e de onde vem todo o material que os forma.
Além disso, grande parte do que o organismo não precisar de imediato ficará acumulada entre os músculos e a pele, formando um isolante térmico. Pensando assim, ganhar uns quilinhos durante um inverno rigoroso não é tão mau assim, não é mesmo?
3) Exercite-se
O urso e outros animais fazem o quê no período mais frio do ano? Nós, ao contrário, devemos nos exercitar.
Duvida? Então me diga o que acontece no seu corpo quando fica com frio? Ele treme. Justamente! Deixando bem claro: o exercício físico é tão importante no frio que, se você não o faz por vontade própria, seu próprio corpo se encarrega de fazê-lo. Há quem diga que a tremedeira pode até quintuplicar a produção de calor no corpo.
Mas lembre-se de sair agasalhado se for fazer exercícios em lugares frios e de manter-se novamente aquecido após a prática de esportes.
Êxtase em alto-mar
Depois de alguns meses descobrindo, como intercambista, inúmeros detalhes das diferenças materiais e culturais entre o Brasil e a Alemanha, entrei em um trem em Frankfurt com destino a Oslo, capital da Noruega.
Dando uma olhada no mapa europeu, você vai ver que, nessa viagem, eu teria que passar pela Dinamarca e Suécia antes de chegar ao destino final. Além do mais, você vai notar que, em alguns trechos, só existe a água do mar. Então como seria possível completar todo esse roteiro dentro de um trem?
Também me perguntei isso. Na época, eu nem sabia o que era internet, então era bem mais difícil conseguir informações sobre viagens, a vida em outros lugares e até sobre a necessidade de vistos e outras burocracias que, nessas horas, são extremamente relevantes.
Fui meio sem saber o que estava por vir. Aos 16 anos, a vida era uma aventura ainda maior do que é hoje. Viajar de trem já era interessante porque sempre acaba-se conhecendo gente de lugares variados e com histórias curiosas pra contar. E, pra um brasileiro, cruzar em poucas horas uma fronteira e dizer “Agora estou em outro país” era um luxo.
Depois de uma curta estadia na Dinamarca, porém, surgiu algo ainda mais interessante. O trem parou e todos os passageiros tivemos que descer. Ao sair pela porta, o susto: não estávamos em uma estação, e sim dentro de um navio.
Era pra levar a bagagem? Teria controle da polícia? Trocaríamos de trem? Perdidaço, simplesmente segui a multidão.
Era um navio turístico normal, muito mais sofisticado que uma das tantas balsas com que estamos acostumados no Brasil. A maioria das pessoas se acomodou nos assentos do bar, restaurante e em outras salas de espera. Descobri então que, nos cerca de 50 minutos que passaríamos ali dentro, estaríamos deixando a Dinamarca e entrando na Suécia.
Me distanciei do grupo e, curioso, fui subindo, subindo, até chegar a um amontoado de máquinas no convés. Com certeza, aquele não era um lugar feito especialmente pra turistas. Além disso, era noite, fazia frio e o frio não era, digamos, dos mais fracos. Mesmo assim, foi ali que passei um dos momentos de maior êxtase da minha vida.
Hoje, pode parecer bobagem, mas, naquela noite, abrindo os braços e sentindo aquele frio desgraçado, eu olhava de um lado a última cidade dinamarquesa desaparecendo e, no outro, contemplava as luzes da primeira cidade de mais um país desconhecido, achando tudo o máximo. Puxa, com 16 anos, cruzar, sozinho, 4 países em cerca de 24 horas é mesmo pra não se esquecer nunca, você não acha?
Respeitando as diferenças
Um sujeito estava colocando flores no túmulo de um parente, quando vê um chinês colocando um prato de arroz na lápide ao lado.
Ele se vira para o chinês e pergunta:
- Desculpe, mas o senhor acha mesmo que o defunto virá comer o arroz?
E o chinês responde:
- Sim, quando o seu vier cheirar as flores.
Moral da história:
Respeitar as opções do outro, em qualquer aspecto, é uma das maiores virtudes que um ser humano pode ter! As pessoas são diferentes, agem diferente e pensam diferente. Portanto, nunca julgue. Apenas tente compreender.
Sete hits da balada alemã
O que você precisa saber antes do seu primeiro voo
Para tudo existe a primeira vez, inclusive pegar o avião numa viagem ao exterior. Se tivesse lido um manual antes de ir ao aeroporto pela primeira vez, eu teria feito algumas coisas de modo diferente. Talvez estas 8 dicas ajudem você a se preparar para a sua primeira (ou próxima) viagem:
1 – Faça o check-in online
Várias companhias aéreas oferecem este serviço cerca de 24 horas antes da viagem. Fornecendo seus dados à empresa, você tem seu voo confirmado, escolhe sua poltrona e pode imprimir seu cartão de embarque em casa.
2 – Conheça os trajetos até os aeroportos
Gastar alguns minutinhos na internet pesquisando como ir do aeroporto ao centro ou ao hotel e vice-versa pode significar a economia de um bom dinheiro e tempo durante esses trajetos.
3 - Tenha os papéis em mãos
Faça uma lista antes de sair de casa: Passaporte, carteira de estudante, cartões de crédito, passagens, confirmação de voos, reservas de hoteis e contatos no país de destino impressos são imprescindíveis.
4 - Diminua a bagagem
Sempre dá para tirar um pouco mais de dentro da mala. Nada de comprar coisas novas para levar para a viagem! Deixe para fazer isso quando chegar no seu destino. O ideal é você não levar mais do que pode carregar sozinho. E cuidado com
5 – Seja prático com a bagagem de mão
Procure levar apenas o absolutamente necessário e o que possa quebrar dentro de uma única bagagem de mão. Quanto mais sacolas ou bolsas você levar, maior é a chance de chamar a atenção dos controladores de bagagem do aeroporto.
6 - Remédios e líquidos
Evite levar remédios na bagagem de mão. Líquidos com mais de 100ml, nem pensar! Água não irá faltar nos aeroportos ou aviões.
7 – Tenha calma ao entrar e sair do avião
Na hora de embarcar, sua poltrona já estará esperando só por você. Quando o avião pousar, ainda levam alguns minutos até que as portas se abram e todos consigam sair. Portanto, não se apavore soltando o cinto e tentando pegar a bagagem de mão desesperadamente para congestionar o corredor esperando em pé. Também não adianta querer chegar fora do aeroporto sem suas malas.
8 – Respeite os comissários de bordo
Eles trabalham para a companhia aérea; não para você. Com gentileza e um sorriso sincero, é bem provável que você consiga ser bem tratado e até agraciado com regalias como um salgadinho ou um almoço extra. Peça com jeitinho e agradeça...
9 – Seja discreto e seguro no controle no aeroporto
Tanto na partida quanto na chegada, aja com naturalidade durante o controle de bagagens e passaportes. “Quem não deve, não teme.” Portanto, tenha todos os itens do número 2 em mãos, olhe nos olhos dos controladores e responda apenas às perguntas que lhe fizerem – por mais irritantes que sejam. Antes de querer dar uma de malandro, lembre-se de que dezenas ou centenas de espertalhões passam por ali todos os dias.
Roubado em Cochabamba
Cada um com uma mochila nas costas e ambos perdidaços, saímos procurando, de porta em porta, um hotelzinho barato pra passarmos as próximas 3 noites na cidade.
Muito caro, lotado, feio demais... cada vez que entrávamos em um hotel, encontrávamos uma nova razão pra voltarmos à rua em busca de algo melhor.
Como as ruas estavam praticamente desertas, notamos claramente que alguém nos seguia pela calçada. Olhamos desconfiados quando o senhor nos alcançou e questionou sobre nossa nacionalidade e o que fazíamos ali àquela hora do dia, mas me acalmei assim que ele mostrou um crachá se apresentando como oficial da polícia.
“Vocês ainda não se registraram no escritório de imigração da cidade?”, nos perguntou o tal policial. Respondemos, surpresos, que não. Cochabamba andava tendo sérios problemas com o tráfico de drogas, especialmente por causa de jovens brasileiros disfarçados de turistas. Pelo menos foi essa a história que o cara nos contou. Nós, apesar de confusos, a engolimos.
Em seguida, o sujeito pegou o celular e ligou pra alguém. Ao desligar, nos disse: “Uma viatura está vindo nos levar até o escritório pra vocês se registrarem agora”. Poucos segundos depois, ele sinalizou pra um taxista. O motorista parou, conversou com o tal policial e este então nos falou: “Vamos, entrem porque a viatura deve demorar.” Entramos.
Claro que sentíamos que alguma coisa não estava em ordem, mas o que podíamos fazer? Depois do Guilherme e do oficial, me sentei no banco de trás do taxi, fechei a porta e o motorista arrancou.
Revista
O oficial era bem simpático e, aos poucos, fui me tranquilizando. Amigavelmente, ele fez uma série de perguntas, como quanto tempo queríamos ficar na cidade, aonde iríamos depois, quanto dinheiro trazíamos e onde o guardávamos.
Como quem não quer nada, passou a revistar a bolsa do meu amigo, supostamente só pra verificar se não trazíamos mesmo entorpecentes. Por fim, pediu pra ver nossos documentos e, quando abri minha bolsinha com o passaporte e 6 notas de U$50, ele contou o dinheiro na minha frente e devolveu tudo direitinho.
Convencido da nossa boa índole, o senhor nos disse que nos pouparia do transtorno de ir até o escritório fazer o tal registro e pediu ao taxista que nos levasse de volta à região onde tinha nos pegado.
Alívio?
Paramos em frente a um hotel que o policial recomendou e, alegres, saímos do carro. Antes de partir, ele ainda nos desejou uma boa estadia e alertou que tomássemos cuidado com nossas coisas porque a cidade estava infestada de ladrões.
Entramos no hotel, fizemos o check-in e nos sentamos pra aguardar até que nosso quarto estivesse limpo. Foi nesse ínterim que o Guilherme, revirando sua mochila, começou a resmungar: “Cadê minha câmera? Minha câmera sumiu!” Cada vez mais impaciente, ele seguiu procurando, até tirar sua própria conclusão: “Foi aquele policial. Ele roubou minha câmera!”
“Que absurdo”, eu disse, já bravo com o irresponsável do meu companheiro de viagem. O dono do hotel se intrometeu e lhe contamos o que havia acontecido minutos antes. Depois de um suspiro, ele tirou os óculos, fez aquela cara de “já vi este filme antes” e nos disse: “Compañeros, lo siento, pero aquí no hay policía en la calle.”
“Caindo a ficha”
Ou seja, aquele homem não era policial coisa nenhuma, seu crachá era falso, a história das drogas e do registro era lorota, o telefonema tinha sido pro comparsa taxista, a câmera do Guilherme tinha sido roubada durante a revista na sua mochila e... “Opa, meu passaporte e meu dinheiro!”
Abri a bolsinha com o coração acelerado. O passaporte estava lá, mas os dólares não eram mais os mesmos. Apesar de eu não ter tirado os olhos deles por nenhum segundo enquanto o senhor os contava dentro do taxi, ele fez U$250 desaparecerem. “Pelo menos ele não levou tudo”, pensei alto, vendo a única nota de U$50 que tinha restado.









