O país do medo (Guatemala parte 1)

Poucas vezes senti tanto medo quanto na Guatemala em setembro de 2003. Depois de seis meses de pesquisas teóricas, voei para lá com o objetivo de colher impressões pessoais e entrevistar pessoas-chaves para concluir meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso): um livro-reportagem sobre a guerra civil no país.

O conflito durou oficialmente 36 anos, desde um golpe de Estado na década de 1950, até o acordo de paz assinado em dezembro de 1996. De forma bem resumida, o país ficou dividido entre guerrilheiros de um lado; oligarquia, exército e grupos paramilitares ligados ao aparelho estatal do outro. Em 1999, porém, Christian Tomuschat, coordenador da Comissão para o Esclarecimento Histórico (CEH), formada pela Organização das Nações Unidas (ONU), disse que as origens dos conflitos estavam ligadas às injustiças econômicas, sociais e raciais da Guatemala.

A CEH documentou 42.275 casos de mortes e desaparecimentos durante os conflitos armados, dos quais 23.671 foram execuções arbitrárias, frequentemente com típicos traços de crueldade do exército. Segundo estimativas extra-oficiais, o número é muito maior: em torno de 200 mil - na maioria campesinos ou outros civis.

Enquanto apurava os dados e lia ou escutava as histórias dos protagonistas do conflito, era comum eu me perder na transição entre estudante, repórter, brasileiro, aventureiro ou mero curioso. Minha única identidade constante era a de ser humano – o que ficou bem evidente durante toda a viagem.

Apesar de já terem se passado sete anos, ainda é difícil expressar a intensidade do que senti ao ouvir os relatos de sobreviventes contando como suas famílias foram aprisionadas e queimadas vivas dentro de uma igreja, por exemplo. Ou ao escutar a história de um ex-traficante de drogas da capital. Ou ainda o calafrio ao entrevistar um guerrilheiro legendário que havia sido dado como morto pelo exército seis ou sete vezes.

Violência e impunidade

Entretanto, não foram as histórias do passado que me fizeram ter tanto medo enquanto estive na Guatemala. Já nos primeiros dias, vi uma multidão de seguranças particulares armados nas ruas, me inteirei sobre sequestros e assassinatos de jornalistas e juízes, e descobri que apenas 3% dos homicídios eram sequer investigados.

Como não conseguia disfarçar minha “cara de gringo” nem esconder a mochila com câmera fotográfica e lentes teleobjetivas, eu pensava todos os dias: “É hoje que vou ser assaltado ou sequestrado.”

Para piorar, na primeira semana que passei na capital, fui hospedado por uma funcionária do Comitê de Direitos Humanos da Guatemala (CDHG). Ficar na casa dela, no Barrio 21, era como estar no Rio de Janeiro para escrever sobre policiais e traficantes e se alojar na casa de alguém no Morro do Alemão.

Também visitei outras regiões, incluindo uma comunidade de refugiados em El Quiché, o estado mais castigado pela guerra civil. Pude ver não só as belezas naturais de Altitlán, mas também descobrir histórias de massacres nos arredores – contadas principalmente por um médico forense dos Estados Unidos. Por último, tive o alívio de passar dois ou três dias tranquilos contemplando as ruínas maias de Tikal, no nordeste do país.

O resultado de toda a pesquisa e das centenas de fotos foi um livro-reportagem chamado O país do medo – a Guatemala de injustiça, violência e impunidade, cujo destino final foi alguma estande da biblioteca do Centro Universitário de Maringá (Cesumar). Para você que nunca poderá encontrar a obra numa livraria, espero que bastem os relatos que ainda farei aqui de alguns dos episódios mais marcantes daquela viagem.

Um comentário:

Nicole Kuhn disse...

Oi! fazia tempo que eu nao passava por aqui, esse feriado no BR hj me motivou =)
gostei do texto, na verdade de todos eles! como tu tá?
bj