O par de chinelos do menino indiano

Durante os 35 dias vividos no pequeno vilarejo de Pushkar, no deserto estado do Rajastão, na Índia, conheci um menino de rua.

Provavelmente condenado pela sua casta inferior na sociedade hindu, ele acompanhava um grupo parecido com ciganos e vivia pedindo dinheiro na principal rua da cidade, próxima do lago sagrado.

O garoto tinha 11 anos e se sobressaía pela esperteza e fluência em inglês. “Aprendi falando com os turistas”, contava o pequeno prodígio.

Encantado pela vivacidade e pelo carisma do moleque, lhe propus um pacto para selar nossa “amizade”: “Vamos ser amigos, mas eu nunca vou te dar dinheiro.” Ele concordou.

Sempre que nos encontrávamos, nos divertíamos contando as novidades e repartindo um pouco daquela energia que ele parecia sugar do sol do deserto para gastar depois que escurecia.

Por falar em escurecer, você deve saber que, nos desertos, a temperatura cai bastante durante a noite. No Rajastão, não era diferente. E meu jovem amigo vivia com uma camiseta horrorosa regata, uma bermudinha e descalço. Por isso, um dia, lhe perguntei se queria um par de sapatos.

Claro que ele quis e lá fomos nós dois procurar um par de chinelos. Ele escolheu o que queria, experimentou e saiu da loja todo faceiro com os pés calçados.

Surpresa

No dia seguinte, no mesmo lugar onde sempre nos víamos, encontrei uma molecada brincando e pedindo dinheiro para os transeuntes, mas nada do meu amiguinho. Seria até normal não encontrá-lo, já que ele corria como um foguete por todos os lados.

Por isso, não dei muita importância, mas, de repente, um outro moleque veio até mim, me apontou o nosso amiguinho, o qual tentava se esconder em meio à multidão.

“Look look! He selling shoes!”, derurou o pequeno informante.

Um dia depois de ter ganhado o par de chinelos, o garoto os tinha vendido e estava novamente descalço…

Noites iluminadas em Berlim

Durante o Festival de Luzes (Festival of Lights), realizado entre 13 e 24 de outubro de 2010, um total de 70 áreas, monumentos e itens da capital alemã recebem iluminação especial durante a noite. Aproveitando a compainha do amigo fotógrafo Fernando Miceli, enfrentei o frio para "brincar" com a câmera e o tripé também.

Prefeitura (Rathaus) e Alexander Platz:


Portão de Brandenburgo (Brandenburger Tor):



Donato: o caminhoneiro italiano


Já fazia duas horas que minha irmã Lise e eu torrávamos à beira da Autostrada. Já tínhamos percorrido algumas centenas de quilômetros desde Frankfurt, na Alemanha, até Verona, na Itália. Não seria difícil chegar antes de escurecer em Urbino, no leste do país. Pelo menos era isso que havíamos pensado quando nossa carona alemã nos deixou no acostamento da rodovia.

Pegar carona nunca tinha sido fácil. Porém, jamais tínhamos passado tanto tempo sem que um carro sequer parasse pelo menos pra nos levar até a cidade seguinte. Naquela tarde quente de verão, o único automóvel que havia estacionado até então tinha sido uma viatura, cujos polizioti puxaram nossa orelha porque pegar carona na rodovia era proibido.

Poucos minutos depois, uma enorme carreta branca diminuiu bruscamente a velocidade e parou no acostamento. Lise e eu corremos até a cabine com as mochilas pesadas nas costas e o suor pingando no rosto. Quando a verdadeira porta da esperança se abriu, tomamos um susto. Donato, o provinciano italiano com cara de malandro e barba por fazer no volante não dava uma das melhores impressões, digamos assim...

“Entramos ou não entramos?”, nos perguntamos sem abrir a boca, com uma mistura de medo e excitação em nossos semblantes. Quisemos saber aonde ele iria. “Livorno”, respondeu. Madre mia, onde ficava aquilo? “Na costa oeste.” Sendo sensatos, éramos obrigados a recusar, pois rumávamos exatamente para a direção contrária. Porém, o espírito aventureiro e o medo de passarmos a noite acampando à beira da estrada nem tomou conhecimento da sensatez. Sentados ao lado de Donato no alto da carreta, vibramos juntos com o motor. “Andiamo a Livorno allora!”

Nas horas seguintes, Donato tentava ganhar nossa confiança esbanjando simpatia – o que seria mais fácil se seus interesses pela minha irmã fossem menos nítidos. De qualquer forma, ficamos aliviados quando ele nos contou que morava com a esposa e os dois filhos e aceitamos o convite para jantarmors e passarmos a noite na casa deles.

A familia nos recebeu com afeição e certa empolgação. No dia seguinte, feriado na cidade, fomos todos à praia e, à noite, assistimos ao espetáculo de fogos de artifício à beira da água.

Donato procurava ao mesmo tempo um emprego na cidade para nós e uma carona até Urbino, onde já tínhamos um trabalho à nossa espera. Infelizmente, não obtivemos sucesso em nenhuma das duas coisas, mas passamos três dias inesquecíveis na praia, sendo mimados por Donato e sua família. Na casa da família, até retirar os copos da mesa nos havia sido proibido!

Antes de partir, Donato nos presenteou com um pequeno dicionário de alemão-italiano. Dez anos depois, o presente continua na estante, imortalizando não só palavras, mas também boas recordações.

Relato de uma sobrevivente (Guatemala parte 3)

Izabela Cumatzil foi uma das personagens que me ajudaram a entender e escrever sobre o trágico período de guerra civil da Guatemala. Em 04 de setembro de 2003, ela contou:


Perdi dois irmãos nos massacres. Um em 1981; o outro, em 1982. Às vezes começamos a contar nossa história e temos sentimentos fortes de verdade. E não gostamos de voltar ao tema dos massacres. Também sou testemunha do que fizeram, de todas as torturas, mas é muito doloroso contar.


Os soldados usavam os jovens para carregar suas coisas de um lugar para outro e faziam os homens trabalhar e cavar um poço grande para que eles mesmos fossem enterrados. As mulheres, eles as estupravam. Principalmente as moças solteiras. As estupravam até que as matavam. Das mulheres grávidas, cortavam a barriga, tiravam os bebês de dentro e os colocavam sobre as pernas das mães. Tudo isso fez o exército.


Agarravam as crianças pequenas pelos pés e as matavam. Também metiam homens, mulheres e crianças que não podiam matar a bala dentro das salas de reunião e nas capelas e os queimavam. Jogavam gasolina... Dentro estava toda a gente e a molhavam com gasolina. Com os soldados em volta, do lado de fora, como se poderia escapar?


Queimavam as casas com tudo dentro. Inclusive as pessoas - homens, mulheres, velhos, crianças... se acabou, viraram cinzas! Foi isso que aconteceu em Cuarto Pueblo no dia 14 de março de 1982. Foi muito cruel.


Nós, os sobreviventes, não fomos ao mercado no povoado. Por isso escapamos. O que fizemos foi fugir. Nos encontramos com outros sobreviventes, nos organizamos em poucas famílias e fomos para baixo das montanhas. Deixamos nossas casas abandonadas. Ficaram animais, ficou tudo. O que podíamos carregar é o que pudemos levar.


O exército sempre procurou as pessoas no centro, nas casas. Onde chegavam, não havia mais ninguém. Então, começaram a queimar as casas. Quanto aos animais, os comeram ou os levaram. Todos os soldados fizeram o que quiseram.


Nessa época, eu não tinha filhos, mas estava grávida. Com sete meses de gravidez, tive que correr fugindo com meu marido e outras famílias. Cruzamos a fronteira com o México e outras famílias que estavam na redondeza também puderam se esconder, enquanto o exército permanecia em Cuarto Pueblo.


Oito dias depois do massacre na comunidade, nossos esposos descobriram que os soldados haviam saído de nossas casas. Então, nossos maridos foram até o centro, por onde o exército entrou primeiro. Segundo eles, os animais estavam comendo seus próprios donos. As casas e os donos já haviam sido queimados. Então as galinhas, os cachorros e os porcos... estavam todos ali comendo seus donos.


O medo se apossou de todos nós que pudemos sobreviver e nos esconder. É assim que permanecemos embaixo da montanha e como surgiram as Comunidades de Povoação em Resistência (CPR).

Segundo estimativas, 7 milhões de alemães praticam o nudismo

Para quem vive há muito tempo na Alemanha, ver corpos nus na sauna ou em determinadas áreas de praias e lagos não é novidade. Porém, tanto para nativos quanto para estrangeiros, cruzar com pessoas nuas em um parque é algo de se estranhar.

O nudismo ou naturismo são conhecidos há várias gerações na Alemanha pela sigla FKK, em referência ao termo Freikörperkultur, que significa "cultura do corpo livre". As novas vertentes dessa cultura são popularmente chamadas de Nacktivitäten (atividades nudistas) e praticadas sobretudo por naturistas que se unem em diferentes áreas do país para passear, andar de bicicleta, de canoa ou a cavalo, sempre nus.

Leia mais aqui.

Estudantes brasileiros em Berlim

A Alemanha tem mais de 200 mil universitários estrangeiros. Cerca de 15% deles escolhem Berlim para estudar.

No artigo publicado pela Deutsche Welle, alguns brasileiros que vivem na capital alemã explicam o que a cidade tem a oferecer para quem quer estudar.

Carnaval das Culturas em Berlim 2010

Desde 1996, a Oficina das Culturas (Werkstatt der Kulturen organiza o anual Carnaval das Culturas (Karneval der Kulturen) no bairro berlinense de Kreuzberg.

A 15ª edição do evento foi realizada entre 21 e 24 de maio de 2010. Ao todo, foram montadas 380 barracas e quatro palcos para um público esperado de 1,4 milhão de pessoas.

Na tarde de domingo (23), cerca de 4,5 mil representantes de 70 nações desfilaram da estação de metrô Hermannplatz até a estação Yorckstraße, fazendo do desfile, mais uma vez, a atração principal da festa.

Você encontra o artigo publicado na Deutsche Welle aqui.

Tacheles: arte na terra de ninguém



Tacheles é um edifício excêntrico localizado no centro de Berlim. Nos últimos dias, descobri fatos interessantes para a reportagem publicada em 15 de maio de 2010 pela Deutsche Welle. Eis alguns trechos dela:

O imóvel fica na rua Oranienburger Straße, em pleno centro de Berlim, e atrai aproximadamente 400 mil turistas por ano. Bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial, o edifício em ruínas foi ocupado por artistas em fevereiro de 1990. Batizado de Tacheles (pronunciado tárreles em português), ele se tornou, com o passar dos anos, uma das principais atrações turísticas da cidade.

Para quem visita o local pela primeira vez, o cheiro de urina nas escadas e a infinidade de mensagens pixadas ou coladas nas paredes são um choque. A cada andar, a casa artística oferece uma nova surpresa. Ao todo, são 6000 m² com 30 estúdios, além de um cinema e bares.

Desde 1990, cerca de 10 mil artistas já passaram pela casa artística. A estimativa é de Linda Cerna, organizadora da Tacheles e.V., entidade sem fins lucrativos que administra o local. Cerna e outras três pessoas são contratadas pela instituição como funcionários em meio período. Voluntários e estagiários dão suporte à equipe administrativa.

Para financiar e divulgar os projetos artísticos, a Tacheles e.V. cobra aluguel dos estúdios. “A princípio, queríamos que os estabelecimentos privados com fins lucrativos, como o cinema e os bares do térreo, bancassem a casa artística”, explica Linda. Mas o plano não deu certo. “Por isso, os custos são divididos com os artistas”, complementa. De acordo com ela, o aluguel mensal de um ateliê de 32 m² custa em média 260 euros.
(Leia mais aqui.)

Relatos de jovens testemunhas (Guatemala parte 2)

Quando conheci Esperanza Ramírez Pablo, em 2003, ela tinha 20 anos e era professora em Primavera del Ixcán, pequena comunidade formada por cerca de 300 famílias.

Num texto publicado em 1999, descobri que Esperanza havia escrito uma carta aos 11 anos contando a seguinte história:
Em minha comunidade, uma senhora tinha dado à luz um filho havia pouco tempo quando tivemos que sair em emergência porque o exército estava próximo à Comunidade. Naquele dia, ela teve de sair correndo, sem poder levar suas coisas.

Os soldados vinham tão perto que viram a mulher e a seguiram. Muito angustiada, ela se preocupava sobretudo com o filhinho que carregava nas costas. Sem entender o que estava acontecendo, ele chorava e chorava sem descansar e isso fazia com que os soldados soubessem por onde a senhora caminhava.

Ela não podia dar de mamar nem tranquilizar seu filho. Até que se meteu em uma valeta por onde corria um pequeno riacho que fazia um pouco de ruído. Ali, ela aproveitou para dar de mamar à criança, pensando que estavam a salvo.

Se espantou quanto ouviu os soldados. O que ela fez lhe doeu muito, mas pensou por uns segundos que não havia outra saída: deixou ali mesmo a criança e seguiu correndo para a montanha.

Os soldados chegaram aonde estava o menino, levantaram-no e golpearam-no forte contra as pedras. Ele morreu dessa maneira e foi deixado ali quando os soldados se foram.
Muitas outras crianças presenciaram cenas traumatizantes durante os conflitos armados. No livro Masacres de la selva, de Ricardo Falla, descobri um trecho em que um pequeno garoto conta como presenciou o assassinato de uma mulher durante o massacre em Santa María Tzejá no dia 15 de fevereiro de 1982:
Havia uma mulher grávida. Partiram-lhe o estômago e tiraram-lhe o filhinho. Cortaram a cabeça de um outro (homem) e a meteram no estômago da mulher. Um menininho pôde escapar, se enfiou em um lugar e contou o que haviam feito à sua mamãe.
Para quem nunca passou por situações como as narradas acima, é difícil imaginar as consequências psíquicas com que tanto crianças quanto adultos perseguidos pelos soldados tiveram que conviver. Mesmo depois de muitos anos, as memórias dos acontecimentos trágicos causados pelo exército permanecem frescas entre os sobreviventes dos tempos de guerra.

Os desenhos a seguir, feitos por Edgar Monzón Alvarado, com 25 anos em 2003, demonstram isso. O autor das figuras passou toda a sua infância fugindo dos kaibiles (soldados) e das patrulhas civis entre as montanhas do estado de El Quiché.

O país do medo (Guatemala parte 1)

Poucas vezes senti tanto medo quanto na Guatemala em setembro de 2003. Depois de seis meses de pesquisas teóricas, voei para lá com o objetivo de colher impressões pessoais e entrevistar pessoas-chaves para concluir meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso): um livro-reportagem sobre a guerra civil no país.

O conflito durou oficialmente 36 anos, desde um golpe de Estado na década de 1950, até o acordo de paz assinado em dezembro de 1996. De forma bem resumida, o país ficou dividido entre guerrilheiros de um lado; oligarquia, exército e grupos paramilitares ligados ao aparelho estatal do outro. Em 1999, porém, Christian Tomuschat, coordenador da Comissão para o Esclarecimento Histórico (CEH), formada pela Organização das Nações Unidas (ONU), disse que as origens dos conflitos estavam ligadas às injustiças econômicas, sociais e raciais da Guatemala.

A CEH documentou 42.275 casos de mortes e desaparecimentos durante os conflitos armados, dos quais 23.671 foram execuções arbitrárias, frequentemente com típicos traços de crueldade do exército. Segundo estimativas extra-oficiais, o número é muito maior: em torno de 200 mil - na maioria campesinos ou outros civis.

Enquanto apurava os dados e lia ou escutava as histórias dos protagonistas do conflito, era comum eu me perder na transição entre estudante, repórter, brasileiro, aventureiro ou mero curioso. Minha única identidade constante era a de ser humano – o que ficou bem evidente durante toda a viagem.

Apesar de já terem se passado sete anos, ainda é difícil expressar a intensidade do que senti ao ouvir os relatos de sobreviventes contando como suas famílias foram aprisionadas e queimadas vivas dentro de uma igreja, por exemplo. Ou ao escutar a história de um ex-traficante de drogas da capital. Ou ainda o calafrio ao entrevistar um guerrilheiro legendário que havia sido dado como morto pelo exército seis ou sete vezes.

Violência e impunidade

Entretanto, não foram as histórias do passado que me fizeram ter tanto medo enquanto estive na Guatemala. Já nos primeiros dias, vi uma multidão de seguranças particulares armados nas ruas, me inteirei sobre sequestros e assassinatos de jornalistas e juízes, e descobri que apenas 3% dos homicídios eram sequer investigados.

Como não conseguia disfarçar minha “cara de gringo” nem esconder a mochila com câmera fotográfica e lentes teleobjetivas, eu pensava todos os dias: “É hoje que vou ser assaltado ou sequestrado.”

Para piorar, na primeira semana que passei na capital, fui hospedado por uma funcionária do Comitê de Direitos Humanos da Guatemala (CDHG). Ficar na casa dela, no Barrio 21, era como estar no Rio de Janeiro para escrever sobre policiais e traficantes e se alojar na casa de alguém no Morro do Alemão.

Também visitei outras regiões, incluindo uma comunidade de refugiados em El Quiché, o estado mais castigado pela guerra civil. Pude ver não só as belezas naturais de Altitlán, mas também descobrir histórias de massacres nos arredores – contadas principalmente por um médico forense dos Estados Unidos. Por último, tive o alívio de passar dois ou três dias tranquilos contemplando as ruínas maias de Tikal, no nordeste do país.

O resultado de toda a pesquisa e das centenas de fotos foi um livro-reportagem chamado O país do medo – a Guatemala de injustiça, violência e impunidade, cujo destino final foi alguma estande da biblioteca do Centro Universitário de Maringá (Cesumar). Para você que nunca poderá encontrar a obra numa livraria, espero que bastem os relatos que ainda farei aqui de alguns dos episódios mais marcantes daquela viagem.

Lothar Schulz: fome de liberdade

Muitas das viagens que fazemos são marcadas por cenas, sons e acontecimentos, mas há também pessoas que encontramos no caminho e jamais esquecemos. Lothar Schulz foi uma delas na minha vida.
Quando nos conhecemos no camping em que eu trabalhava em Roma, o alemão tinha 56 anos e estava apenas começando uma viagem de bicicleta pela Europa. Recentemente, nos reencontramos em Berlim, onde o ex-engenheiro finalmente resolveu sossegar um pouco em outubro de 2009.

O tempo entre nosso primeiro e segundo encontros foi de 4,5 anos. Quando encerrou a viagem oficialmente na capital alemã, o computador da bicicleta marcava 53,7 mil quilômetros – percorridos durante quatro anos em 19 países.

O mais interessante, porém, não é a quilometragem em si, mas o combustível que move os músculos desse loiro alto de 60 anos com disposição de homem de 30.

Sonho de liberdade

O nascimento do Herr Schulz foi registrado em 1950 no hospital da pequena Altruppin, ao norte de Berlim. Desde o ano anterior, quando a Alemanha havia sido dividida, a cidade fazia parte da República Democrática da Alemanha (RDA), a “Alemanha Oriental”.

Na juventude, Lothar começou a se incomodar com a opressão do regine comunista e passou a sonhar com variados conceitos de liberdade. Além de não poderem ir a várias partes do mundo, ele e os compatriotas não tinham autonomia para escolher que carreira seguir, muito menos liberdade para expressar o que pensavam.

Em 1978, participou de uma demonstração em Berlim e foi preso. Três anos depois, conquistou a liberdade que tanto queria sendo expulso do país e imigrando na “Alemanha Ocidental”.

No Oeste, Lothar se valeu da formação como engenheiro para se destacar profissionalmente e realizar viagens constantes à Inglaterra e França a trabalho. Mas essas jornadas não bastaram para satisfazer a fome que ele tinha de conhecer outras culturas. Por isso, depois de juntar dinheiro por 1,5 década, Em 2005, iniciou a tal viagem de bicicleta.

Na bagagem, Lothar levou consigo poucas roupas, uma câmera digital, dicionários e uma barraca, dentro da qual passou a maioria das noites nesses quatro anos de aventuras e descobertas. Além de desafiar a natureza sob sol e chuva, ele foi atropelado duas vezes na Espanha. Lembrando a experiência, ele diz: “É mais forte que heroína. Atravessar diferentes países e dormir em condições simples em contato intenso com a natureza é algo que me fascina muito mais que drogas para outras pessoas.”

Hoje

Atualmente, o engenheiro se mora feliz em um apartamento de 27 m² com vista para o campo longe do centro em Berlim. Além de se exercitar na academia do condomínio em que mora, nos dias de sol, costuma deixar a casa de bicicleta. “Nunca vou me tornar um aposentado; só vou me acalmar no cemitério”, diz.

Lothar nunca fumou, evita cafeína e não exagera na cerveja. Mas não é só isso que o torna um exemplo de superação. Ele é interessado em política, aprendeu italiano e espanhol na marra quase aos 60 anos e está planejando a próxima empreitada a pé de Berlim até Moscou. “Dessa vez documentando tudo para fazer um filme”, revela. Quer mais?

Mercados de pulgas

Mercados de pulgas existem em vários países europeus, sobretudo na Itália, Espanha, Holanda, Bélgica, Espanha, Inglaterra e Alemanha.

Na Alemanha, onde são chamados de Flohmärkte, Trödelmärkte ou Antikmärke, eles reúnem diferentes povos vendendo ou à procura de objetos muitas vezes excêntricos.

Em 13 de março, foi realisada mais uma edição do maior mercado de pulgas noturno de Berlim (Nacht-Flohmarkt in den Rathenauhallen in Oberschöneweide). Cerca de 170 comerciantes expuseram as mercadorias em um espaço coberto de mais de 8000 m².

Veja o que descobri sobre a organização do evento e que histórias estão por trás dos objetos aqui.

Cidadania italiana

A Itália tem pouco mais de 60 milhões de habitantes. No entanto, provavelmente cerca de 60 milhões de cidadãos brasileiros, argentinos e estadunidentes também têm “sangue italiano”. A Embaixada Italiana em Brasília estima que o Brasil tem 25 milhões descendentes dos imigrantes que chegaram ao país principalmente a partir da década de 1870.

Como você já deve saber, vários desses descendentes têm se esforçado para conseguir a dupla cidadania e conquistar, com isso, o direito de ir à Europa quando bem entenderem e permanecer quanto tempo quiserem.

Como é fácil de compreender, a procura é desproporcional ao contingente dos consulados e ao interesse dos italianos em concederem a dupla cidadania. Assim, milhares de pedidos tanto de brasileiros quanto de argentinos de reconhecimento da cidadania italiana estão emperrados há anos nos consulados desses países sul-americanos. Por isso, os descendentes mais dispostos vão pessoalmente até a terra natal dos antepassados em vez de esperar sentados.

Foi o que fiz em 2005. Cheguei em Roma como brasileiro e, sete meses depois, saí de lá como italiano. Dois anos mais tarde, foi a vez da minha mãe repetir a história, já que o reconhecimento da minha cidadania não implicava no reconhecimento da dela. Apesar do tempo passado, acredito que pouca coisa tenha mudado nos procedimentos básicos. Espero que estas dicas possam ajudar:

Ainda no Brasil

Só pense em ir para a Itália quando tiver:

- todos os documentos originais necessário, conforme os sites dos consulados especificam;

- a tradução deles feita por um tradutor juramentado*;

- a autenticação dos documentos com suas respectivas traduções, feita pelo consulado italiano que atende a região em que você mora**.

* O site do “seu” consulado deve ter uma lista com os tradutores juramentados do seu estado.
** Uma taxa é cobrada e também deve haver uma fila de espera para isso, mas nada melhor do que ir pessoalmente cedinho ao consulado para tentar conseguir os tais carimbos.

Na Itália

Se não tiver um visto de estudante ou de trabalho, você pode entrar na União Europeia como turista. Turistas recebem automaticamente um visto de três meses e não podem trabalhar. Mostrar todos os documentos e contar o porquê da sua viagem à Itália não irá alterar o tipo ou o prazo do seu visto.

A cidade em que você irá residir deve ser a mesma em que você “dará entrada no processo” de reconhecimento da cidadania. Porém, não precisa ser a cidade em que seu parente italiano nasceu.

Assim que chegar à cidade que tiver escolhido, a primeira coisa a fazer é se registrar na polícia logo na primeira semana. Não espere cordialidade, esteja bem atento aos horários de abertura de tudo que é público e acostume-se desde essa etapa a seguir as instruções burocráticas nos mínimos detalhes. Uma manhã inteira de viagem até a polícia e na fila de espera com estrangeiros das mais variadas partes do mundo podem ser em vão se um formulário ou uma foto estiverem faltando.

Com o tal registro em mãos, o próximo passo é procurar um lugar onde você possa morar oficialmente. Isso significa que você deverá se inscrever como residente naquele endereço. A inscrição é feita na anagrafe della popolazione residente (APR), uma extensão da prefeitura encarregada dos registros de nascimento, matrimônio, divórcio, adoção, óbito e naturalização. Cidades grandes têm várias anagrafi. Procure a do seu bairro.

Aqui, prepare-se para enfrentar dois impecilhos:

- alguns funcionários públicos podem hesitar em lhe dar esse registro porque “você é um turista”;

- a própria pessoa que lhe aluga o imóvel ou cômodo pode se negar a registrar você na casa.

Se tudo correr bem, você se registra e espera até que algum oficial lhe faça uma visita surpresa naquele endereço. Não tem nada de mais. É abrir a porta, deixa-lo(s) entrar, ver que você mora mesmo ali, assinar um documento ali e pronto. Alguns dias depois, constará na anagrafe que você é, oficialmente, residente na Itália.

Algumas pessoas procuram entidades da Igreja ou organizações não governamentais e conseguem esse registro de residência muito mais fácil e rapidamente. Se você optar por essa busca, é mais provável que tenha êxito numa cidade grande.

Com o registro na polícia, a comprovação da residência e todos seus documentos originais, traduzidos e autenticados, você deve se dirigir ao Comune (prefeitura) para, finalmente, solicitar sua naturalização. Por via das dúvidas, é bom levar também cópias dos documentos conseguidos nos dias anteriores e algumas fotos extras. Em casa, não custa guardar cópias de todos os papeis que você levou do Brasil.

Na prefeitura, algum funcionário analisa todos os documentos e lhe diz se está faltando algo. Torça para que não esteja. Depois disso, você recebe um comprovante de que “deu entrada no processo” e “aguarda até que alguém lhe contate” quando tudo estiver pronto. Como “quem espera, nem sempre alcança”, sugiro que você anote os telefones e nomes de quem lhe atendeu e, a partir de um ou dois meses depois desse dia, comece a ligar a cada semana ou quinzena cobrando um parecer.

Essa é a parte mais demorada do processo. Segundo os funcionários da prefeitura, esta cobra do consulado que autenticou sua papelada no Brasil uma confirmação da veracidade da sua identidade e de todos os documentos. Pode levar dois meses, três, quatro... ou um ano. Por isso pode ajudar ficar cobrando. Depois que receber a confirmação do consulado, a prefeitura deixa sua naturalização pronta em minutos.

Com a naturalização em mãos, é hora de correr atrás dos seus documentos de identidade italianos. O primeiro deles é a certidão de nascimento, que lhe é feita instantaneamente na sua velha conhecida anagrafe. É apenas uma nova certidão em italiano, com os mesmos dados da sua brasileira.

Em seguida, requeira ali mesmo a carteira de identidade. É necessário que duas testemunhas estejam presentes para confirmar que você é você. Por isso, leve amigos ou peça para alguém ali mesmo para lhe fazer esse favor.

Por último, você pode ir à polícia para solicitar seu passaporte italiano, o qual deve ficar pronto em até três semanas. Por favor, não me culpe se demorar mais.

Para a identidade e o passaporte, também existem várias instruções – fotos assim e assado e cópias disso e daquilo - , mas nada que não se possa resolver em meio dia de correria.

Se quiser permanecer na Itália, você ainda precisará de um código fiscal, uma conta bancária e por aí vai. Mas isso você já pode descobrir lá, não é mesmo?

Com organização, otimismo e um bocado de sorte, 4-6 meses na Itália podem ser o suficiente para se tornar um cidadão da União Europeia e ficar livre para escolher onde viver na Itália ou em qualquer outro país europeu. Buona fortuna!

Recepcionista num navio cruzeiro no Mediterrâneo


Eu não tinha ideia do que me esperava quando cheguei com uma mochila enorme nas costas e o passaporte italiano novinho no bolso em Palermo, na Sicília, em dezembro de 2005.

Eu era o novo contratado da Costa Crociere, empresa com uma das maiores frotas de navios cruzeiros do mundo. Quando vi o gigante Costa Fortuna ancorado, fiquei espantado com a dimensão da “nave” e não pude evitar o frio na barriga. Me mudado várias vezes eu já tinha, mas nunca para um navio.

Quatorze andares, centenas de cabines, vários restaurantes, piscinas, lojas e uma série de outras atrações. Havia até teatros, cassino e spa a bordo. Nos primeros cinco dias, a embarcação permaneceu ancorada na capital siciliana, enquanto uma revisão geral era feita em praticamente todos os compartimentos. Nesse período, aproveitei para conhecer o que e quem podia e participei de um treinamento intensivo com os demais dez front desk operators, meus colegas de trabalho da recepção.

Dias antes do Natal, o Costa Fortuna partiu com cerca de 1700 tripulantes e 3300 passageiros. Assim que nos afastamos da terra firme, foi feita uma simulação de incêndio, o que serviu para “quebrar o gelo” entre tripulantes e turistas. Horas mais tarde, éramos uma verdadeira cidade em alto-mar – ainda que um mero pontinho visto lá de cima, no céu.

Os contras

Não demorou muito para que o encantamento fosse substituído pelo estresse. A recepção ficava aberta 24 horas por dia. Em frente a ela, filas de passageiros de todas as idades e com os mais variados anseios eram formadas a maior parte do tempo. As pessoas faziam perguntas sobre direções ou o cardápio, iam registrar cartões de crédito para o pagamento, reclamavam sobre defeitos nos banheiros de suas cabines e por aí ia.

Como front desk operator, eu tentava resolver o problema de todos falando seis línguas e mantendo sempre a calma. Sempre de terno e gravata e em pé. Nove, dez, até quinze horas por dia.

Além da sobrecarga no trabalho, tinha de conviver com o cinismo e a falta de cordialidade dos superiores. Minha própria chefe, a chefe dela e o chefe da chefe dela, por exemplo, pareciam mais estar contra os funcionários do que a favor. Existia uma hierarquia entre os tripulantes, com oficiais predominantemente italianos no topo, uma série de trabalhadores de várias partes do mundo no meio e principalmente chineses, indianos e filipinos da cozinha e lavanderia embaixo da pirâmide.

Confinado

Não tinha como escapar da realidade. Não se podia ir caminhar no parque, sair para tomar um sorvete, ir ao cinema ou encontrar os amigos num bar. Mesmo se ficasse doente, não tinha para onde fugir nos próximos cinco meses, quando venceria meu contrato.

Vivendo confinado, percebi que, em poucos dias, as pequenas decepções tomaram grandes proporções – ao contrário da cabine de uns 15 m2 (incluindo banheiro) que eu dividia com um colega italiano de humor inconstante.

Para piorar, a academia disponível para os 1700 tripulantes era um fiasco, com um único aparelho de exercícios para as pernas. Dez minutos de lento acesso à internet custavam um euro. Como se isso não bastasse, eu era obrigado a desperdiçar as poucas horas livres que tinha com programas chatos de treinamento de primeiros socorros e conhecimentos específicos sobre o funcionamento do navio.

Alguns dias, eu trabalhava das 5h às 10h e das 15h às 19h, por exemplo. Considerando que o horário fosse cumprido, imagine o que se podia fazer durante o intervalo das 10h às 15h! Exausto, eu geralmente ia direto para a cama, mas precisava levantar duas horas depois para não perder o almoço.

Naquela viagem, passamos pela Espanha e África antes de voltarmos a Savona, na Itália, sete dias depois. Apesar da correria e do cansaço, tive a oportunidade de andar algumas horas em Túnis (Tunísia), Trípoli (Líbia) e Malta. Pelo menos para dizer que valeu a pena.

Depois que todos os turistas desembarcaram em Savona, seguimos com novos passageiros até Civitavecchia, perto de Roma, onde desembarquei sem receber um centavo para nunca mais voltar. No dia anterior, eu havia decidido que o primeiro cruzeiro também seria o último. Pelo menos como tripulante.

O que é fundamental pra aprender um idioma

Se está prestes a ir viver fora do Brasil, você deve estar ciente de que dominar o idioma daquela região será crucial pra sua integração à cultura local. Além disso, conseguir se comunicar bem com os nativos não só evitará muitas más experiências, como também tornará as boas ainda melhores.

Nem todo mundo que começa a aprender outra língua, entretanto, faz isso por causa de uma viagem ao exterior. Há também quem busque esse conhecimento por causa do trabalho, pra entender letras de músicas ou textos científicos, por imposição dos pais, por mera curiosidade ou até mesmo pra poder paquerar alguém de outro canto do mundo.

As razões são, portanto, variadas, da mesma forma que as opções que temos hoje em dia pra conseguirmos esse conhecimento. Cursos no colégio e em escolas especializadas, aulas particulares, materiais audio-visuais pra auto-didatas, treinos com músicas e filmes, leitura e escrita com dicionários em mãos... Você pode escolher uma ou até todas essas opções.

O segredo é...

Qual é o segredo, então, pra tornar seu aprendizado realmente eficaz? Motivação. É claro que o método e a capacitação de quem lhe ensina também são relevantes, mas é mais importante pensarmos como o ditado que diz: “Não existem bons ventos para quem não sabe aonde quer chegar.”

Descubra o que você quer almejar estudando uma língua estrangeira. Pense no que pode ganhar com isso: nas vantagens em relação a outros concorrentes na sua área de estudos e trabalho, na facilidade pra se locomover virtualmente e fisicamente pelo mundo, no bem que pensar em outro idioma pode fazer ao seu cérebro e nas portas que se abrirão no futuro imprevisto.

Por mais que tenha tempo e ótimos professores e materiais didáticos, sem acreditar numa boa razão e visualizar os benefícios que você poderá atingir se tornando um bilíngue, trilíngue ou poliglota, provavelmente você estará perdendo tempo e dinheiro.

Mas que fique bem claro: só a motivação não ensina nada a ninguém. Por isso, quando estiver ciente do que tem a ganhar dominando outro idioma, junte a motivação à concentração, detalhismo e persistência… e mãos à obra!

Como é viver numa sociedade individualista

Desde a primeira vez que viajei à Alemanha, há mais de dez anos, tenho comparado os modos, costumes e ideais das pessoas sem entender direito como sul-americanos e europeus, por exemplo, podem ser tão diferentes.

Por que, em alguns lugares, religião é tão importante, políticos são tão corruptos e pessoas são tão simpáticos, enquanto outros países já rumam há muito tempo ao estabelecimento de uma sociedade individualista e de sexo neutro?

Lendo The Ethics of Authenticity (A Ética da Autenticidade), do filósofo canadense Charles Taylor, pude finalmente perceber quão bobo era ficar observando as pessoas em vez de prestar atenção nos ideais morais que dão suporte às suas sociedades. No livro, Taylor me ajudou a entender que diabos está acontecendo nos EUA, Canadá e em alguns países europeus. Consequentemente, também ficou claro por que algumas nações mais ao sul tendem a ser tão resistentes às influências do norte.

Deve haver muito mais gente confusa por aí. A maioria sem saber no quê acreditar, o que almejar, como se satisfazer e, o que é ainda pior, muitas pessoas sem saber quem são. Se você é uma delas, deixe-me tentar ajudar dando uma breve explicação pra tudo isso e me perdoe se ela parecer simplista demais.

Liberdade e igualdade

Você se lembra do que os revolucionários franceses exigiam? “Liberté, égalité et fraternité”. Ou seja, democracia. O Oeste (prefiro dizer “Noroeste”) matou os três coelhos com uma só cajadada: Justiça.
Com igualdade e liberdade garantidas por lei, os cidadãos puderam confiar no Estado e as hierarquias sociais começaram a desmoronar. Quando as pessoas se deram conta de que não precisavam mais seguir os dez mandamentos de Deus e implorar pela misericórdia dele, a religião e seus valores se tornaram obsoletos.

Agora pense no que aconteceu quando as pessoas deixaram de acreditar em Deus e passaram a procurar realização ou satisfação pessoal do jeito que bem entendiam.

Consequências

De acordo com Taylor, isso levou ao individualismo e ao desencantamento do mundo, tornando o solo fértil para o crescimento de um leve relativismo e do instrumentalismo – alguns termos peculiares que estão interrelacionados e são fáceis de entender.

Em outras palavras, os indivíduos perderam a fé em algo “maior” e se voltaram a si próprios (individualismo e desencantamento do mundo); ninguém mais pôde dizer aos demais o que é bom e ruim (relativismo); e tanto a natureza quanto os próprios humanos passaram a ser considerados meros instrumentos para a realização pessoal dos indivíduos (instrumentalismo, o motor principal do capitalismo).

Por um lado, uma sociedade assim permite que você seja como você bem entender, sem que alguém lhe diga o que fazer ou como agir. Por outro lado, ninguém dá a mínima pra você. Já que os indivíduos são levados a buscar auto-realização de forma autônoma, também não há mais a necessidade nem o dever de ajudar os vizinhos. É esse o lado egoísta do individualismo que faz os alemães dizerem tanto “Das ist nicht mein Problem” (Isto não é problema meu).

Dilema

Como Taylor aponta, as pessoas têm agora mais um “problema”: encontrar sua própria identidade. Se não somos mais “filhos de Deus” e se a maioria das posições hierárquicas da sociedade desapareceram, quem somos nós? Alguém pode se perguntar estes dias: “Beleza, agora que somos todos livres e temos os mesmos direitos de sermos quem quisermos, como posso me diferenciar dos outros?”

Eis uma contradição curiosa: queremos ser iguais, mas ao mesmo tempo especiais. Olhe ao seu redor: o mundo está cheio de melhor disto, os top 10 daquilo, os mais disto e a lista do ranking daquilo. Ainda desejamos ser diferentes. E queremos ser autênticos.

Agora pense nisto: Quem vai validar a sua autenticidade? Quem vai confirmar a sua identidade? Talvez falemos disso uma outra hora.

Defeitos de brasileiro

Simpático, extrovertido, corajoso, improvisador, dedicado, animado e com muita ginga, como se nota no samba, futebol e capoeira. Essas são algumas das principais características positivas com que o brasileiro é constantemente definido no exterior.

Existem também os defeitos, como qualquer povo do mundo tem. É justamente pra esses pontos negativos da nossa imagem lá fora que quero chamar a sua atenção.

Esperteza

Muito brasileiro se acha esperto e tem orgulho disso. No entanto, as qualidades das pessoas não são valorizadas na mesma medida em todo o planeta. Tem regiões, por exemplo, onde ser cool é mais importante do que ser sábio; ou onde ficar quieto é mais apreciado do que sair falando o que se pensa. E há também regiões onde a inocente honestidade é mais valorizada do que a malícia.

No Brasil, a esperteza faz parte do nosso dia-a-dia. Muitos de nós aprendemos a ser malandros desde cedo e, mesmo quando isso não acontece, precisamos saber nos defender dos espertalhões que estão à solta.

Quando começam a conviver com um povo menos malicioso, os compatriotas que continuam agindo com malandragem acabam manchando a imagem de todos nós. Usar transporte público sem pagar, fazer negócios desonestos e contar mentiras pra sair por cima são algumas das principais manias do brasileiro espertalhão.

Pressa

No Brasil, falamos com qualquer um que senta ao nosso lado, viramos amigo dos professores e clientes, fazemos piadas dos colegas da sala ou do trabalho e até beijamos alguém 5 minutos depois de ter visto pela primeira vez. Em muitos outros países, essas coisas acontecem bem mais devagar... ou jamais.

Quando chegar em um lugar estranho, tenha cautela e seja observador. Aos poucos, você vai perceber se é melhor dar a mão ou um beijo no rosto ao cumprimentar alguém, se você pode se servir antes dos outros durante as refeições ou até se pode tratar outra pessoa com o pronome “você” em vez de “o senhor” ou “a senhora”.

Principalmente nas amizades ou paqueras, tome muito cuidado pra não parecer desesperado.

Jeitinho

Outra má característica de muitos brasileiros é a mania de ser teimoso, burlar regras e forçar a barra pra conseguir o que quer.

Acostumados com a vida de onde nasceram, muitos chegam no exterior achando que propinas, atrasos, sonegações e comercialização de privilégios também funcionam lá fora. O resultado é desastroso: não aprendem a seguir as regras, principalmente as que dizem “não” alguma coisa.

Diversos serviços só funcionam em países do Hemisfério Norte porque os cidadãos se respeitam e prezam pelo patrimônio público. Quando tiver a oportunidade de estar em um lugar desses, aproveite pra seguir os bons exemplos e deixe a tentação de dar um jeito pra tudo de lado.

Acredite: os caminhos da esperteza, pressa e do famoso jeitinho brasileiro podem ser mais rápidos, mas os da sensatez e paciência são certamente mais seguros.

Um mês dormindo na casa de (quase) estranhos no México


Em 2002, me aventurei por um mês em terras mexicanas. Quando fui, não conhecia ninguém por lá. Entretanto, viajei 30 dias do Pacífico ao Atlântico sem passar uma noite sequer em hotel. Quer saber como?

Quando cheguei no aeroporto internacional da capital, esperei que Mikhail Moura, membro do Hospitality Club com quem eu havia trocado alguns emails nas semanas anteriores, me identificasse. Assim que um rapaz alto se aproximou e perguntou “Elton?”, parecia que éramos velhos conhecidos.

Já no aeroporto, conheci também sua irmã, Varenka, e fomos pra casa da família, onde passei quatro belos dias com um quarto só pra mim, comida à vontade, Internet (luxo na época), telefone e outras regalias.

Uma noite, dançando salsa numa discoteca da cidade, comentei com Mikhail e sua namorada, Fernanda, que queria ir para Acapulco. Eu precisava, porém, de algum lugar pra ficar por lá. Fernanda se lembrou na hora de uma amiga que tinha e, no dia seguinte, recebi a boa notícia: eu poderia ficar, por tempo indeterminado, na casa de Israel, primo de uma amiga da namorada do Mikhail.

No caminho a Acapulco, passei um dia em Taxco e, à noite, cheguei a Cuernavaca, onde dormi na casa da mulher que havia viajado ao meu lado no avião. No dia seguinte, finalmente cheguei à praia mexicana mais conhecida no Pacífico, onde Israel já esperava na rodoviária.

A terra do Chaves

Israel era a simpatia em pessoa. Filho de um engenheiro civil, ele já se destacava, aos 24 anos, no ramo da arquitetura. A própria casa onde sua família morava (de três andares) havia sido caprichosamente construída por ele e seu pai, engenheiro civil.

No meu segundo dia na casa, surgiram duas surpresas tanto mim quanto pra toda a família de Israel. Primeiro, um primo seu (Ricardo) acabava de chegar pra passar cinco dias de férias em Acapulco. Segundo, ele tinha trazido quatro amigos junto e pediu se todos poderiam ficar ali. “Uau, o cara é louco”, eu pensei... Mas acabamos todos sendo bem acomodados na casa. Detalhe: continuei com um quarto só pra mim.

Logo me enturmei com os rapazes mais do que com Israel. Íamos à praia, jogávamos bola e pulávamos à noite do segundo andar da casa na piscina. Passei a chamá-los de “los cinco pendejos”. Passados os cinco dias, chamaram:

Proposta irrecusável

“Elton, vamos con nosotros a nuestra ciudad!” San Luís Potosi, onde eles moravam, era longe pra dedéu - uns 800 km de Acapulco. Além disso , já eram cinco num carro destruído. Em outras palavras: adorei e é claro que fui junto.

Em San Luís, fiquei na casa do Carlos. Doi dias depois, eu tinha que ir para Cancún, onde pegaria o avião de volta ao Brasil. Mais uma vez comentei que precisava encontrar um lugar para ficar e... Adivinhe!

Após um dia inteiro num ônibus, lá estava eu em Playa del Carmen, no Caribe, pertinho de Cancún, na casa de Yovani. Quatro ou cinco dias depois, voei de volta pra casa.

Ah, sim! Quem era Yovani? Primo de Carlos, que era amigo de Ricardo, que era primo de Israel, que era aquele primo de uma amiga da namorada de Mikhail, que eu tinha conhecido na Internet.


Sem ter onde dormir em Viena


Depois do sufoco que passamos sendo barrados na viagem à Hungria, Anne e eu voltamos de trem à capital austríaca e pegamos o ônibus para o camping onde havíamos passado as três noites anteriores.

Quando chegamos, ele já estava fechado. Os check-ins encerravam às 22h. Sem ideia de aonde ir e muito menos com dinheiro para pagarmos um hotel no centro da cidade, saímos caminhando pelas ruas da vizinhança.

Minha sugestão era bater nas portas das residências e pedir para que, caridosamente, nos deixassem passar a noite lá. Tudo bem que isso já tinha funcionado em Portugal, mas, cá entre nós, há um abismo entre a hospitalidade lusitana e a austríaca.

Portanto, logo percebemos que isso não daria certo em Viena. Foi então que encontramos um sobrado com uma placa informando que havia quartos para hóspedes. Ou seja, era uma pousada.

Check-in?

Tocamos a campainha várias vezes em vão. Passamos pelo portão aberto, abrimos a porta destrancada e procuramos por alguém na recepção. Ninguém.

Continuamos ousados. Subimos até o primeiro andar, até o segundo e giramos a maçaneta de um quarto no terceiro piso. A porta se abriu e vimos que o quarto, com cama de casal, estava arrumadinho. “É aqui mesmo”, concordamos.

Dormimos muito bem e acordamos cedíssimo para tomarmos um longo banho antes de partirmos – de preferência sem encontrarmos os donos da casa.

Check-out?

Depois do banho, arrumamos a cama e tentamos apagar todos os vestígios da nossa estadia. Nos vestimos, colocamos as mochilas nas costas e, quando íamos descendo sorrateiramente as escadas, a anfitriã nos surpreendeu. Como dois anjinhos, dissemos algo como: “Puxa, íamos procurá-la agora porque chegamos tarde e já temos que ir agora cedo.”

Duvido que ela tenha acreditado, mas não houve estresse, pagamos pelo quarto e fomos embora. O preço era até razoável, mas se soubéssemos que pagaríamos pela cama, teríamos continuado dormindo nela pelo menos a manhã inteira.

Tentando entrar na Hungria sem visto

Alguns anos atrás, fui passear em Viena com Anne, uma namorada alemã. Depois de três ou quatro dias de turismo na capital austríaca, “deu a louca” e decidimos pegar o trem para Budapeste.

Eu sabia que cidadãos brasileiros precisavam de visto para atravessar a fronteira, mas decidimos arriscar sem ele, mesmo. Assim, compramos uma passagem e, com mochilas nas costas, entramos em uma cabine com seis lugares e ali ficamos quietinhos.

Em pouco tempo, o trem parou e alguns policiais entraram. Pelo menos é o que deduzimos, pois não tínhamos coragem de ir até a porta e colocar a cabeça para fora.
A parada foi curta e, assim que a locomotiva voltou a funcionar, entramos um estado misto de alívio e euforia. Pena que durou pouco.

Controle

Os oficiais da imigração húngaros entraram na nossa cabine e, gentilmente, pediram para ver nossos passaportes. À Anne, bastou mostrar a carteira de identidade alemã e podia prosseguir a viagem tranquila.

Eu, no entanto, queria mostrar qualquer coisa – menos o passaporte brasileiro, o qual, na época, era verde. Comecei entregando uma carteira internacional de estudante feita meses antes em Portugal.

Não funcionou. A cara de bobo, o espírito eventureiro de 18 anos e a explicação de que seriam “só duas noites em Budapeste” também foram em vão.

Acabamos descendo na parada seguinte, onde ficamos esperando sentados no chão, escoltados por um soldado que não falava nada além de húngaro, até o próximo trem em direção a Viena passar.

Quando voltamos à capital da Áustria, o camping em que havíamos ficado nas noites anteriores já estava fechado. É assim que começa a próxima história...

Ganhando dinheiro desenhando



Foi mais ou menos com quatro anos que comecei a desenhar. Pouco mais tarde, enquanto as outras crianças (e as professoras) faziam os admiráveis homens e mulheres-palitos, meus seres humanos já tinham peito, pescoço, braços e até pés.

As primeiras noções de sombra vieram aos 12 ou 13 anos. Depois, as técnicas de perspectiva e profundidade. Com 16 anos, eu já copiava qualquer ilustração, adorava desenhar o Wolverine e arriscava fazer retratos de pessoas famosas e bem chegadas – ótimas cobaias.

Desenhar era um vício que eu alimentava em casa, na escola e, eventualmente, também nas viagens mundo afora.

Numa dessas viagens, algo mudou. Foi em Paris, quando babei vendo alguns artistas fazerem caricaturas dos turistas em poucos minutos. Como eu ainda recebia mesada na época, imaginei que aqueles desenhistas ganhavam uma boa grana com aquilo e acabei sonhando: “Puxa, imagine se um dia eu puder desenhar tão bem e tão rápido assim! Será que seria capaz de ganhar dinheiro em qualquer lugar?”

Primeiras moedas

Um ano e meio depois, parei numa rodoviária em Corrientes, na Argentina, enquanto ia de Assunção a Córdoba. O próximo ônibus só sairia sete horas depois. Sem mais o que fazer, tirei uns lápis da bolsa e comecei a fazer esboços dos rostos de alguns passageiros que também estavam sentados por perto.

Uma criança curiosa se aproximou e atraiu a atenção de um zelador, o qual parou, riu e chamou um colega. Quando me dei conta, eu estava rodeado de gente e alguém perguntou: “Cuánto cobrás para dibujarme a mí?” Surpreso, respondi: “Un peso!”

Não era muito, mas foi a primeira vez que eu recebi algo por desenhar. Quando embarquei no ônibus, tinha ganhado sete pesos, que equivaliam a 14 reais.

Não parei mais e o valor foi aumentando. Tanto que, menos de dois anos mais tarde, com cada caricatura que eu fazia, conseguia pagar duas noites do hotel em Pushkar, uma pequena cidade na Índia.

Desesperado

Uma vez, em Cancún, faltando ainda quatro dias para voltar ao Brasil, perdi minha carteira com o cartão de crédito e uns dólares que eu havia acabado de sacar no banco. Sem cartão de crédito e sem dinheiro – o que podia fazer?

O jeito foi pegar minha prancheta, folhas e lápis de cor, colocar a mochila nas costas e sair pela praia perguntando quem queria uma caricatura. Depois de hesitarem, quatro italianos toparam entrar na brincadeira, apesar da indisposição para pagar muita coisa pelo trabalho.

No final, felizmente se divertiram com os cabelos, orelhas, bocas e narizes exagerados e me ajudaram a conseguir outras vítimas outros clientes. No fim das contas, aquele dia de trabalho foram suficientes para eu passar os três dias seguintes aproveitando a beleza do Caribe.

Muda o país, muda a comida


Se você for passar uma temporada na Europa ou na América do Norte, é bom começar a se preparar psicologicamente. Assim como quando teve de abandonar seu ursinho ou travesseiro quando era criança, agora vai chegar a hora de dizer adeus ao diário arroz e feijão.

Em alguns lugares, a maioria das pessoas nunca viu uma panela de pressão. Se viu, não tem a mínima ideia pra quê serve. Provavelmente, você encontrará feijão em pequenas latas, mas com aquele tom marronzinho e o sabor do que você come na sua casa no Brasil… esqueça!

A abdicação não vai parar por aí. Pastel, farofa, pão de queijo, cachorrão com batata palha, paçoca, pé de moleque, bolo de cenoura e nega maluca – também já eram!

Nem tudo está perdido 

Pra quem sentir falta dos doces da terra-natal, eis um alívio: a cada ano que passa, leites condensados ocupam as prateleiras de mais supermercados. Pelo menos o brigadeiro está garantido! Agora cuidado: não comece a fazer um pavê sem ter certeza de que irá encontrar Guaraná no lugar em que você estiver.

“E a cachaça?”, você deve estar perguntando. Jamais a encontrei em supermercados do Hemisfério Norte, mas confesso que também nunca procurei (rs). Apesar de ser leigo no assunto de bebidas alcólicas, acho que tal da caipirosca com vodca não fica tão diferente da caipirinha com pinga. Se ficar ruim, você toma tudo sozinho e pronto.

Outro gosto 

Algumas coisas ainda estarão disponíveis em qualquer lugar, mas não necessariamente com o gostinho com que você está acostumado. Quando experimentar o chocolate, a pizza e a carne de outros países, você vai saber do que estou falando.

E por falar em carne, provavelmente você tenha se acostumar com três coisas. Uma: comer menos. Duas: incluir carne de veado, carneiro e pato ou ganso no seu cardápio. Três: tolerar carne mal passada. Mesmo de frango. Credo!

Não se assuste com a falta de noção dos europeus, por exemplo, ao comerem frutas. Em pouco tempo, você vai rever seu conceito de “suco de laranja”, se acostumar com pessoas descascando laranja com as mãos ou comendo a maça inteira - com semente e tudo. E sabe quando a banana está no ponto, cheia de pintinhas marrons? Já passou do ponto pras pessoas que jamais viram uma bananeira crescer nos seus países.

A parte boa 

Mas calma porque também há coisas boas. O leite na Europa é uma delas. Barato e espesso, acaba sendo também responsável por uma enorme variedade de iogurtes e queijos pra todos os gostos. Todos mesmo.

E já ouviu falar do pão alemão? Do queijo marrom norueguês? Da paella espanhola? Do vinho italiano? E dos doces canadenses do Tim Hortons, do cheese cake estadunidense, do fondu suíço, do goulash húngaro..? A lista é enorme. E tinha que ser, mesmo. Afinal de contas, você vai ver que aguentar a falta de um bom bife com arroz e feijão não é fácil.

Ciganos batedores de carteira na Itália

Com o que você associa a palavra “ciganos”? Se pensou em música, dança e roupas coloridas, não há nada de errado. Entretanto, a realidade desses povos espalhados ao redor do mundo não é… digamos tão colorida assim.

Ao que tudo indica, os ciganos provêm da Índia. No final do século 14, os primeiros grupos chegaram à Europa e continuaram andando para lá e para cá em todo o continente. Seu nomadismo e diversos costumes sempre causaram incômodo às comunidades locais, levando os nazistas a incluí-los na lista negra. Provavelmente, meio milhão deles foram mortos nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

A perseguição não parou por aí, como demonstram recentes ataques a assentamentos de ciganos em determinadas regiões da Itália, França e Irlanda do Norte. Mas será que isso tem ocorrido só por causa dos costumes dessas famílias?

Itália

Proavelmente, entre 60 mil e 90 mil deles vivem atualmente na Itália - pelo menos 3 mil nômades na capital Roma.

Em 2005, assim que cheguei para viver na cidade, fui logo avisado: “Muito cuidado com os ciganos!” Segundo os locais, seria fácil reconhecê-los, principalmente as mulheres com saias longas, chinelos ou sandálias e cabelos compridos.

Uma das suas características culturais é andar em bandos. Muitas vezes, identificá-los é uma questão de auto-segurança, pois estar próximo desses grupos pode significar ficar sem sua carteira ou bolsa – principalmente dentro e ao redor dos ônibus e metrôs.

Tudo bem que 97% das crianças ciganas não frequentam a escola, que a maioria dos adultos é analfabeta, que a expectativa de vida deles é por volta dos 50 anos e que as condições precárias dos assentamentos e barracas se somem a outros inúmeros fatores que os empurram para as margens da sociedade. Mas o que você vai pensar quando for a Roma e for roubado por um deles?

Indignação

Ao longo dos meses em que vivi na capital italiana, me acostumei a escutar relatos de turistas inconformados por terem perdido dinheiro, passaporte e outras coisas durante os passeios na cidade. A indignação só aumentava porque tanto cidadãos quanto Estado estão cansados de saber do problema, mas até hoje não encontraram nenhuma solução. Houve, porém, uma tarde em que minha revolta chegou ao ápice.

Assim que subi no ônibus em direção ao trabalho, vi que duas mulheres e uma moça, todas ciganas, estavam em pé, com aquele olhar de caçadoras de níqueis. Fiquei também em pé, próximo da porta dos fundos, no meio do trio e de olho nas três.

Eu achava que, a qualquer momento, pegaria uma delas no flagra tentando abrir a bolsa ou mochila de alguém distraído, mas o que aconteceu foi ainda pior.

A mais velha do grupo tinha um bebê no colo. Apoiada no braço esquerdo da mulher e coberta com um pano, a criança foi ficando cada vez mais próxima de mim conforme a mulher dava pequenos passos na minha direção.

De repente, senti minha carteira se mexer, roçando minha coxa. Instintivamente, coloquei a mão no bolso e me surpreendi com outra mão tentando entrar ali. Na verdade, a cigana estava com o bebê amarrado! O braço dela, coberto pelo pano, estava livre, leve e solto para ela meter a mão na carteira ou dentro da bolsa de quem ela quisesse.

Indignado, fiz um escândalo como um típico italiano, fazendo com que o motorista parasse o ônibus e as três descessem. Depois de chegar à rua, a figuraça ainda cuspiu em minha direção. Não acertou! :-P

Algumas semanas depois, vivi uma situação semelhante em um ônibus lotado, esprimido entre desconhecidos e flagrando um homem também tentando enfiar a mão no bolso dianteiro da minha calça jeans. Novo escândalo, nova parada de ônibus, novo ladrão descendo inconformado.

Portanto, quando for a Roma, Barcelona, Paris e outras cidades europeias onde ouvir “Cuidado com os ciganos!”, fique realmente muito atento.

Escravidão na Itália

Foi no início do verão de 2000 que tudo aconteceu. Morando na Alemanha e ansiosos para finalmente conhecermos a Itália, minha irmã e eu procuramos pela internet alguma oportunidade de viver e trabalhar em meio à “buona gente”.

Com muita sorte, encontramos um anúncio de Fabio, um cara de uns 30 anos que estava recrutando pessoas para trabalharem quatro horas diárias em seu sítio em troca de cama e comida.

Segundo o anúncio e os e-mails que trocamos com o simpático italiano, tudo seria perfeito. A propriedade ficava numa região montanhosa próxima de Urbino, uma bela cidade universitária no leste do país. De acordo com o Fabio, ele e os pais produziam uma série de alimentos “biológicos” e viviam em harmonia com a bela natureza na sua propriedade.

Além do mais, combinamos que, por cada hora de trabalho extra, receberíamos 8 dólares. Assim, decidimos passar três agradáveis meses ali e ainda juntar uma grana para a próxima etapa do nosso ano de mochilão.

Bem-vindos?

Quando chegamos em Urbino, telefonei conforme tínhamos combinado e ficamos esperando Fabio ir nos buscar. Quarenta minutos depois, um carro foi estacionado na nossa frente. “Será que é ele?”, nos perguntamos. A porta do motorista se abriu e um sujeito saiu. Sem nos cumprimentar, abriu o porta-malas, olhou para nós e disse: “Andiamo!” Parecia que estávamos no início de um filme de terror como O Albergue ou O Motel.

Aquele sujeito vesgo e de poucas palavras era mesmo Fabio. Depois de percorrermos 20 km em silêncio, chegamos ao sobrado em cujo segundo andar ele vivia com os pais. Pareciam o gigante a bruxa da floresta: um senhor troncudo de mãos grossas e com um dedo a menos, e uma senhora com olhar maligno que tentava dissimular se fazendo de boazinha. Mas não éramos bobos.

O lar

Nosso quarto tinha uma cama de casal que afundava no meio. Toda a comida era regulada. Era tão grave que minha irmã decidiu fazer dieta para ceder um pouco de suas porções para eu não passar (tanta) fome. E tinha algo ainda mais grave: os três fumavam. Faziam isso inclusive na cozinha, enquanto preparavam as refeições e logo depois de comerem, enquanto assistiam a futebol na pequena televisão ao lado da mesa. Me lembro como se fosse ontem da cena da bruxa com o cigarro na boca enquanto preparava a salada de alface.

A paisagem natural da região era, de fato, muito bonita. O sítio, entretanto, não. Da casa às plantações, tudo era muito mal cuidado, dando a sensação de ter várias partes abandonadas. Pra você ter uma ideia, havia quatro ou cinco carros apodrecendo ao ar livre - provavelmente porque eles não estavam dispostos a pagar algum imposto ou a levá-los até um ferro-velho na cidade.

Quanto ao trabalho, não nos contavam o que faríamos no dia seguinte. Na primeira noite, perguntei durante o jantar. “Agora, comemos; depois falamos de trabalho”, foi a resposta ríspida do pai. Mas tudo que ele disse "depois" foi a hora em que deveríamos estar em pé de manhã. Após isso, seguiram os três com a atenção voltada ao jogo de futebol na TV.

Praticamente, ninguém conversava conosco. Até quando estávamos nas plantações de tomates ou de uvas, por exemplo, o gigante da floresta se limitava a movimentar as mãos ou ferramentas e murmurar coisas como “like this” ou “after”, como se fôssemos de planetas diferentes. Detalhe: eu já falava italiano. Apesar disso, naquele contexto, não seria difícil para um brasileiro entender o que “così” e “dopo” ou “poi” significam.

Não nos informavam sobre nossas horas de trabalho nem nos davam oportunidade de planejar nossos dias. Nos usavam duas ou três horas de manhã; depois o mesmo tanto à tarde. Nos intervalos, não podíamos usar internet nem telefone. A cidade era longe demais para irmos até lá a pé. E, claro, só tínhamos três refeições diárias – sempre com eles, a TV ligada e os cigarros acesos.

Fuga

Encurtando a história, no final do segundo dia, um casal estadunidense que vivia no primeiro andar do sobrado se aproximou de nós. Eles já estavam acostumados com jovens estrangeiros decepcionados como nós e se prontificaram a nos ajudar a, literalmente, fugir dali.

Ligaram para um amigo em outra fazenda e pediram que ele nos acolhesse. Quando? O mais rápido possível. De repente, bateram à porta. Fabio e o pai tinham escutado nossas conversas e desceram indignados para evitar que fôssemos embora dali.

A discussão foi feia, mas, na manhã seguinte, saímos sem falar com nenhum deles e Bruce, o estadunidense solícito, nos levou até a cidade, de onde seguimos em caronas até Pescara, onde vivemos “felizes para sempre” por duas semanas na casa do Rafaelle – este, sim, um “cara 10” com esposa, filho, casa, hábitos e amigos adoráveis!